Mulher transforma a casa num doce lar
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de julho de 1997
Iara Lessa Londrina 
Na maioria das vezes esses embriões das casas modernas eram construções de dois andares. O andar principal abrigava a loja ou oficina. A parte destinada ao moradores era geralmente no segundo andar, mas ao contrário dos nossos dias, essas casas não possuíam divisões: as pessoas dormiam, cozinhavam, comiam e se amavam no mesmo ambiente. Também eram poucos os móveis usados naquela época. Baús, que guardavam todo o tipo de coisas, serviam também como assentos ou camas. As roupas, que também estavam guardadas dentro do baú, eram usadas como colchões. Bancos e mesas desmontáveis datam também dessa época.
A razão para se utilizar poucos móveis nessas casas é que no mesmo lugar onde se comia ou dormia, também aconteciam reuniões sociais, jantares e negócios, geralmente sempre com a presença de muita gente. Aliás, essas casas eram sempre muito populosas, moravam facilmente cerca de 20 a 25 pessoas. Até mesmo os criados moravam junto com os proprietários. Era preciso espaço. Então os móveis (a origem da palavra mobília é italiana e data desse período. Significa o que pode ser movido) eram mudados de lugar diversas vezes por dia, para acompanhar as atividades dos moradores.
Segundo Witold Rybczynski, no livro Casa - Pequena História de uma Idéia, o conceito de casa pública (onde se mora e trabalha no mesmo local) persistiu até o século 17, quando começaram as surgir as privacidades, cômodos dentros das casas onde os moradores podiam ficar a sós. Esses cômodos iniciaram a noção de privacidade como se conhece nos dias atuais e revolucionaram os costumes de toda uma época. O conceito de conforto, também como se conhece nos nossos dias, apareceu nesta época. Um documento do século 17 utiliza essa palavra para explicar o nível de comodidade de uma casa.
Ainda para o autor do livro, foi na Holanda que o conceito de casa moderna apareceu pela primeira vez. Essas moradias eram construídas de madeira e tijolos em vez de pedras. Esses materiais, além de mais baratos, eram preferidos por serem mais leves e necessitarem de fundações que suportassem menos peso, já que o solo dos terrenos holandeses geralmente era muito pantanoso.
Mas para Rybczynski foi com a mudança da estrutura familiar na Europa pós-feudal, que copiou principalmente o modelo familiar holandês, que fez da casa um ambiente totalmente privado, compartimentado, cheio de cômodos, móveis e objetos. Enfim, um ambiente parecido com as casas que vivemos hoje.
Segundo a linha de raciocínio do autor, os holandeses nos legaram a feminização da casa, um dos eventos mais importantes na evolução do interior doméstico. A explicação para o fenômeno é simples: como os holandeses quase não utilizavam criados, eram as mulheres que cuidavam da casa.
Essas donas-de-casa começaram a realmente, e talvez pela primeira vez na história da célula familiar, a interferir e influenciar na arrumação e organização da casa, tarefa antes destinada apenas aos criados. E as mudanças logo foram sentidas. Na casa holandesa a cozinha tornou-se o principal cômodo. Havia armários onde se guardavam alimentos e armários distintos onde se guradavam as toalhas, a prataria e a porcelana. As panelas eram penduradas sobre os fogões. Havia bancadas de mármore que eram usadas como mesas ou lugar para arear as panelas. Algumas cozinhas tinham inclusive bombas manuais e reservatório de água, dissiminando o hábito de lavar a louça no mesmo ambiente em que se cozinhava. Enfim, além de humanizar a casa, as mulheres também trouxeram para esses ambientes o conceito de praticidade. Estava construída a casa moderna.


