Mudar para renovar as esperanças
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domingo, 01 de dezembro de 2013
Silvana Leão <br> Reportagem Local 
Receber o diagnóstico de que a vida depende de um transplante é dar início a um difícil processo que envolve, além da estreita convivência com os serviços de saúde, uma angustiante espera por órgão compatível. Nos últimos anos o Sistema Nacional de Transplantes evoluiu sensivelmente e alguns estados, entre eles o Paraná, melhoram a cada ano as estatísticas gerais na área. Mas os progressos ainda não são suficientes para evitar outro capítulo igualmente cruel destas histórias: a necessidade de migração para buscar a salvação.
No caso dos renais crônicos, quando a solução não surge dentro do próprio Estado, a esperança quase sempre vem de Santa Catarina, onde está sediada a Fundação Pró-Rim, criada em Joinville em 1987 e que tornou-se referência em transplante do órgão no Sul do País. "Comecei a pesquisar e várias pessoas me falaram da fundação, então decidi mudar meu cadastro para lá. O Paraná tem grandes cirurgiões, mas alguma coisa não anda", avalia o servidor público aposentado José Roberto Tófano, de 63 anos, que está morando temporariamente na cidade catarinense para recuperar-se da cirurgia feita no dia 11 de outubro.
Enquanto encontrava-se cadastrado no Paraná, Tófano aguardou por um rim durante cerca de seis meses. Depois que optou por inscrever-se na fila do estado vizinho, foram mais dois anos de espera. Mas ele não se arrepende. "Talvez se tivesse continuado aí, a espera fosse ainda maior", diz, ao falar com a reportagem por telefone, do apartamento que alugou em Joinville. Ao cadastrar-se no sistema catarinense, Tófano teve que abrir mão da fila paranaense, pois cada paciente pode permanecer inscrito em apenas uma lista. O que determina a escolha de um paciente para transplante é a compatibilidade do rim disponível, de acordo com o cadastro estadual, em um primeiro momento e, não havendo compatibilidade local, o órgão é disponibilizado para o cadastro nacional.
O servidor aposentado não sabe dizer por que o sistema de Santa Catarina funciona tão bem, mas elogia o tratamento que recebeu no estado vizinho e informa que ao chegar lá, encontrou vários conterrâneos. "Sempre fui muito bem atendido, não há nada do que reclamar. No dia que fiz o transplante já encontrei outros dois paranaenses, que também tinham feito. Depois, conheci outros que aguardavam na fila", conta, lembrando que no quarto em que se recuperou do procedimento, havia um rapaz da Paraíba.
Tófano confessa que a experiência de ficar fora de casa não é das mais prazerosas. "Nasci em Londrina e nunca havia ficado muito tempo fora daí. Não é fácil ter que sair da cidade da gente de um dia para o outro pra conseguir tratamento. Graças a Deus conto com o apoio da minha família, que uniu forças e está me ajudando muito." O londrinense imagina que terá que morar em Joinville no mínimo por uns cinco ou seis meses.
Aparecida Cardoso Ribeiro, de 59, moradora de Cambé, vive com insuficiência renal há 10 anos e se prepara para também cadastrar-se na fila de órgãos de Santa Catarina. Ela ficou sabendo da Fundação Pró-Rim por meio de uma enfermeira que trabalhou lá, e está depositando na instituição suas esperanças de conseguir um novo órgão com mais rapidez. "Fiquei sabendo de várias pessoas que foram para lá fazer transplante e deu tudo certo", argumenta a dona de casa, que viu vários testes de compatibilidade entre seus familiares apresentarem resultado negativo.
Aparecida sabe que não será fácil deixar sua casa e rumar para outro estado em busca de tratamento, mas acredita que esta pode ser a saída para uma desgastante rotina vivida atualmente. Três vezes por semana, boa parte de seus dias são consumidos com sessões de hemodiálise, feitas no Instituto do Rim, em Londrina. "Saio de casa por volta do meio-dia e volto às nove da noite." A dona de casa perdeu uma irmã há pouco mais de um ano, também doente renal, por não ter conseguido realizar o transplante de rim a tempo. "Daqui a pouco não vou ter mais idade para fazer a cirurgia. Fico preocupada." Aparecida só vai esperar passar as festas de final de ano para providenciar a mudança para o cadastro catarinense.
Segundo informações da Pró-Rim, mais de 60% dos pacientes submetidos a transplante de órgãos na instituição atualmente são de fora do Estado, e têm origem acima de tudo no Mato Grosso, Amapá, São Paulo e Rio de Janeiro. Do Paraná, recebem muitos pacientes de Paranavaí, Londrina e Maringá. A fundação informa ainda que a cada ano aumenta a porcentagem de pacientes "migrantes". Em 2010, nesta mesma época do ano, representavam 25%. Atualmente são 60%. A instituição realizou o primeiro transplante renal de Santa Catarina e hoje soma 1,2 mil transplantes renais.


