Movimento observado com atenção
A teóloga e cientista social guatemalteca Brenda Carranza, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e estudiosa do movimento da Renovação Carismática, acredita que o espaço amplo que as pregadoras conquistaram no universo católico só irá se sustentar se não houver conflitos com a hierarquia católica. "Quanto tempo se manterão nesta condição depende de sua própria capacidade de renovar e fazer convincente seu discurso. Elas terão o espaço garantido enquanto não enfrentarem a hierarquia, enquanto não forem banidas ou excomungadas, porque perdendo sua identidade católica poderão migrar para o campo pentecostal", afirma.
A estudiosa acredita que o movimento e os ícones carismáticos, como os grupos de oração e seus respectivos pregadores, estão sendo observados com atenção pela cúpula da Igreja. De acordo com a guatemalteca, o fator que mais preocupa a hierarquia da denominação são as manifestações de cura, exorcismo e milagres. "São intervenções sobrenaturais que requerem aval eclesiástico para serem realizadas e comprovadas. Estas manifestações são vistas com muita cautela pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e quando manifestadas publicamente, como no caso das curas, solicita-se ao clero ficar monitorando o desenvolvimento dos grupos e as manifestações miraculosas", afirma.
Segundo Brenda, este acompanhamento é feito desde 1995, após o lançamento do caderno de Orientações para a RCC no Brasil.
Questionada pela reportagem se há risco dos fiéis católicos migrarem das missas para as celebrações informais da RCC, a teóloga lembra que uma das características do catolicismo brasileiro é a diversidade. "O catolicismo é um imenso guarda-chuva. Muitos não são sequer praticantes. Mas existem os que vão só para os rituais de passagem, como batizados. Há também os que se engajam na Igreja participando de lutas políticas e sócias, os chamados progressistas", enumera a especialista. "Tem ainda os católicos devocionais, que participam de novenas, rezas e bençãos. Acho que quem frequenta os grupos de oração e não vai à missa pode ser considerado como mais um grupo dentro do catolicismo."
Sobre as semelhanças que muitos apontam entre o fenômeno carismático e os grupos pentecostais e neopentecostais evangélicos, a especialista comenta: "Mais que se influenciarem e se copiarem mutuamente, convém dizer que ambas as expressões partilham uma mesma inspiração espiritual e compartilham as mesmas exigências de manter massas e grupos atentos às suas mensagens". E conclui: "nessa direção, tanto uns quanto outros vão desenvolver as mesmas estratégias de expressão corporal e técnicas de retórica disponíveis no mercado e no marketing". (L.F.M.)





