Movido à música
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domingo, 19 de janeiro de 2014
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Esqueça do currículo e das publicações referenciadas. Basta um rápido bate-papo para que a "figura" de Gilson Corsaletti transpareça, definindo sua personalidade musical. Com simpatia e humor afinado, Gilson conta sua trajetória em terra vermelha marcada pelo domínio das baquetas e pela contribuição na Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel), a primeira do Paraná.
Músico admirado, se tornou referência para bateristas e percussionistas de toda a região, atuando inclusive na formação de muitos deles, através de sua própria escola. É um típico amante de partituras, que não para de respirar música, em especial o jazz, mesmo quando a saúde lhe impõe limites.
Atualmente, Gilson passa por tratamento médico devido a um descolamento de retina. Sem poder tocar instrumentos de impacto, como a bateria, ele partiu para o Triângulo e Tímpanos, acompanhando fielmente a Osuel. "Estou em um processo de readaptação porque eu não quero parar. Senão, vou fazer o quê? Música é minha vida", declara.
Ao conhecer sua história, é possível afirmar que Gilson é um artista nato. Aos 9 anos, começou a tocar bateria, mas antes disso, já tinha inventado seu próprio instrumento. Nessa fase, já se tornou integrante de três grupos musicais.
Herança de família
A familiaridade com o ritmo é herança familiar. "Meu irmão tocava violão e minhas tias, meu pai e eu cantávamos música caipira. Mas naquela época, cheguei a pensar em cursar Arquitetura ou Engenharia porque tinha a música como um hobby", comenta.
Com 16 anos, foi convidado a tocar e cantar os sucessos de Raul Seixas em um festival da escola em sua cidade natal, Santo Anastácio, interior de São Paulo. Com o pátio lotado, Gilson relembra do próprio reflexo no vidro, com o público atrás. "Eu me senti um superstar e, a partir dali, tive um clique", revela, em tom de piada.
No final dos anos 70, Londrina se tornou seu endereço pelo curso de Psicologia na UEL, mas as amizades com artistas de teatro e música reforçaram ainda mais o desejo de encarar a bateria como profissão. "Abandonei o curso no último ano e fui para São Paulo fazer música na Faculdade Paulista de Arte (FAP-Arte), pois ainda não existia essa possibilidade na UEL", relembra.
Formado em Educação Artística com especificação em Música, Gilson absorveu grande experiência de renomados bateristas como João Rodrigues Ariza conhecido como "Chumbinho" e Dirceu Medeiros. Foi professor no Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM) e tocava na noite paulistana, integrando os grupos Chorus Band e Gazz de Rua, entre outros.
Gilson também tocou com os músicos Saldanha Rolim, Saulo Laranjeira, Robinson Borba, Márcia Salomon, Neusa Pinheiro e Rafael Lima. São tantas participações e grupos, que ficaria difícil nomear todos.
Em 1989 voltou para Londrina ao conhecer a esposa Ida, com quem tem um casal de filhos. "Seis meses depois, foi aberto um concurso para a Osuel e estou até hoje", completa, recordando de um início tímido, com um grupo pequeno de músicos. Na mesma época, Gilson fundou o curso de bateria "Ritmo", que se manteve até 2010 e ficou conhecida por ter uma metodologia criada por ele mesmo, baseada na autoinstrução.
Desde então, participou de todos os Festivais de Música de Londrina (FML) como percussionista da Osuel e baterista da Big Band. Se revelando um artista completo, Gilson ainda relembra que em 1995 chegou a montar uma pequena fábrica de baquetas, a "Shock". "Criei quatro modelos e cheguei a comercializar, mas durou pouco", conta, mostrando as diferenças de peso, tamanho e modelo entre suas favoritas.
Sua evolução musical pode ser relacionada principalmente à Osuel, fundada em 1984 na gestão do reitor Marco Antonio Fiori. Entre os objetivos, dar um novo fôlego para a orquestra era uma prioridade. "Contrataram um maestro. Naquela época, a Osuel tocava mais música de Câmara e era formada principalmente com cordas. Lembro bem quando a maestrina Cláudia Feres entrou e foi se abrindo espaço na orquestra para outros grupos", lembra.
Durante todos esses anos na Osuel, Gilson teve o prazer de tocar ao lado de diversos solistas como Ayrton Pinto, Antonio Del Claro, Eva Szekely, Yara Bernette, Marco Antonio Almeida, entre outros, além de trabalhar com regentes importantes como Norton Morozowicz.
"Foi um momento importante porque ele deu ênfase à execução de peças brasileiras como Villa-Lobos e que culminou em um CD", explica, relembrando também da regente cubana Elena Herrera e do maestro titular atual, o italiano Maurizio Colasanti.
Apesar de não poder tocar bateria como antes, Gilson não esconde a esperança de voltar às baquetas. E enquanto a cautela tem sido parte do seu dia a dia como músico, há de se lembrar que ela não diz respeito à sua personalidade. Gilson não economiza nada em alto astral e amor pela música.


