Sid Sauer
Enviado a Moreira Sales
Quem passa em frente à Prefeitura de Moreira Sales (70 km a oeste de Campo Mourão) se depara com uma cena inusitada: um cartaz revela os nomes dos cinco vereadores que teriam votado contra um projeto de interesse do município. Título do cartaz: ‘‘Para o povo não esquecer’’. A idéia do cartaz foi do próprio prefeito, o médico Carlos Sila de Andrade (PFL). Ele acusa a Câmara de impedir um trabalho melhor da prefeitura.
‘‘Isso é um absurdo’’, reage a vereadora Francisca Anália de Oliveira Santos, a ‘‘Santa’’ (PTB), uma ex-aliada do prefeito. Ela é mulher do vice-prefeito, o bioquímico Manoel Olímpio Maia dos Santos, o ‘‘Neto’’, que está preso, condenado a 14 anos de prisão por um duplo assassinato ocorrido em 1988. A vereadora não esconde que rompeu com o prefeito porque ele teria se ‘‘omitido’’ no caso da prisão de Neto. ‘‘Nem uma visita ao meu marido ele fez’’, justifica.
Questões pessoais à parte, Santa diz que a faixa pega mal para o prefeito. ‘‘O povo sabe que não é isso’’. Outro vereador, Ivo Borges (PMDB), confirma a votação contrária ao projeto da prefeitura, mas ressalta que os vereadores não poderiam aprovar um empréstimo enquanto a prefeitura não prestasse contas de um empréstimo anterior. ‘‘Os cartazes são a ostentação da mentira’’, diz Borges. ‘‘Isso nunca se viu em lugar nenhum’’.
O cartaz na prefeitura, porém, não foi o único. Até o final do mês passado, o prefeito manteve pintado na parede externa de seu hospital particular – o ‘‘Hospital Dr. Carlos’’ – um ‘‘esclarecimento à população’’. Na pintura, um aviso: o hospital não estava mais atendendo consultas e emergências pelo SUS por causa da denúncia contra o estabelecimento feita por quatro vereadores no Ministério Público da comarca de Goioerê.
O aviso no hospital trazia o nome dos quatro autores da denúncia em letras destacadas em vermelho. ‘‘Os vereadores acima citados comprometem-se a atender as emergências em suas residências. Procure-os’’, completava o aviso pintado na parede. A pintura ficou no local por cerca de oito meses. Tudo porque o prefeito se irritou com a denúncia de que estaria usando médicos contratados pela prefeitura para atender em seu hospital particular.
Segundo Andrade, a denúncia não tem fundamento. O prefeito alega que ele é quem deveria receber por ceder o hospital para os médicos trabalharem, uma vez que o posto de saúde da prefeitura não tem toda a estrutura necessária e fecha à noite e nos finais de semana. O diretor-geral de administração da prefeitura, Amaury Cesar Miranda, diz que, na prática, o hospital nunca deixou de atender. Diz também que o cartaz foi apagado porque ‘‘já cumpriu o seu papel’’.Prefeito coloca cartazes na prefeitura e em seu hospital particular com nomes de vereadores que votam contra a prefeitura
Sid SauerSid SauerREPRESÁLIA‘‘Esclarecimento à população’’ ficou pintado na parede do hospital do prefeito até o final de fevereiro: atendimento pelo SUS suspenso por causa de denúncia contra o estabelecimento

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