MOBILIDADE URBANA - Soluções demoradas, trânsito caótico
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sábado, 15 de fevereiro de 2014
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Todos os dias, a zeladora Divina Benedita da Silva, de 64 anos, perde duas horas nos trajetos de ida e volta para o trabalho. Em vários destes dias ela percorre a distância entre o Conjunto Hilda Mandarino, na Zona Norte, e o condomínio na área central de Londrina em pé, driblando a superlotação. A exemplo dos muitos trabalhadores que dependem de transporte urbano, ela sonha com um sistema de locomoção mais rápido, confortável e de horários sem falhas. Mas Divina terá que ter paciência: a próxima mudança significativa no que diz respeito ao transporte coletivo na cidade só deve acontecer no final da década, quando está previsto o início das operações do sistema BRT (Bus Rapid Transit), ou transporte rápido por ônibus.
Anunciado em março do ano passado pelo prefeito Alexandre Kireeff (PSD), o sistema vai contar com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), ou PAC-Mobilidade, e faz parte de um pacote que inclui também obras de pavimentação asfáltica, em um total de R$ 174 milhões em investimentos. Só o BRT vai consumir R$ 143 milhões - R$ 124 milhões vindos do governo federal, por meio do Ministério das Cidades, e R$ 19 milhões de contrapartida do município.
O prazo para que sejam vencidas todas as etapas de implantação do BRT, entre elas desenvolvimento do projeto, aprovação pelo órgão financiador, licitações para contratação das empresas e desapropriações, é de cinco anos. Atualmente, portanto, há mais quatro anos pela frente. Isso se nenhum imprevisto provocar atrasos no meio do caminho, como normalmente acontece em obras públicas.
O que mais preocupa é que, até lá, deve agravar muito a situação do já caótico trânsito de Londrina, resultado do crescimento desenfreado do número de veículos, de investimentos insuficientes em estrutura viária e da constante queda no Índice de Passageiros por Quilômetro Rodado (IPK) do transporte coletivo. Atualmente, de acordo com números do Detran-PR, as ruas da cidade ganham, em média, 49 novos veículos por dia. Em cinco anos, se permanecer o ritmo atual, serão 66 novos veículos a cada dia.
Em uma projeção simples, também baseada nas atuais estatísticas do Detran, é possível prever que Londrina terá quase um veículo por habitante, ou 462 mil, em 2019. Atualmente já são 340,8 mil veículos transitando pelas vias, contra 251,3 mil que existiam há cinco anos.
Para o ex-presidente do Fórum Desenvolve Londrina e atual assessor da presidência da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Clóvis Coelho, as providências para melhorar a mobilidade urbana em Londrina teriam que ter sido tomadas antes que os pontos de estrangulamento se instalassem e impedissem a fluidez do trânsito, como acontece hoje, nos horários de rush. "Nos acomodamos e começamos a pensar muito tarde no assunto. A cidade é dinâmica, tem que ser pensada sempre a curto, médio e longo prazos", defende o engenheiro, que acompanhou o estudo sobre mobilidade urbana desenvolvido pelo Fórum em 2009, denominado "Mobilidade Humana - Segurança, Liberdade e Educação no Trânsito". Na época a pesquisa já apontou lentidão na fluidez do tráfego e recomendou investimentos em transporte de massa, como trem e metrô, e aumento nos investimentos no planejamento viário urbano, entre outras medidas.
"Temos uma demanda muito grande por infraestrutura urbana, que não vem recebendo recursos suficientes. Precisamos de medidas mais arrojadas, só implantar rotatórias na cidade não resolve mais. Precisamos buscar soluções e correr atrás do governo federal para conseguir o dinheiro. Mas para isso temos que ter projetos bem feitos, e para ter bons projetos precisamos de investimento em pessoal", analisa Coelho. O engenheiro concorda que a situação piora a cada dia e que, se medidas urgentes não forem tomadas, daqui a cinco anos poderemos estar vivendo o "caos total". "A população está cada vez mais irritada, apreensiva, e isto só tende a piorar", avalia.


