Miséria atinge 160 mil londrinenses
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sábado, 02 de junho de 2001
Telma Elorza De Londrina 
Londrina vive hoje um momento paradoxal. Terceira maior cidade do sul do País e segunda do Paraná, apresenta um índice de desenvolvimento humano (IDH) crescente. O IDH é um índice criado em 1990 para medir o desenvolvimento de um município, região ou País e leva em conta não só o Produto Interno Bruto (PIB) per capita como também a expectativa de vida de uma população e o grau de maturidade educacional (taxa de alfabetização de adultos mais a taxa combinada de matrículas nos três níveis de ensino). Apesar disso, a cidade está cercada pelo desemprego, miséria e, pior, pela fome.
Segundo dados da Companhia de Habitação de Londrina (CohabLD), atualmente quase 48 mil pessoas mais de 10% da população vivem em favelas, assentamentos e ocupações urbanas, num total de 57 áreas espalhadas pelo município. A maioria em condições absolutas de pobreza, sobrevivendo com menos de um salário mínimo por mês.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1991 mais de 20 mil famílias viviam abaixo da linha da pobreza, com menos de US$ 1 por dia. O censo de 2000 ainda não foi processado, mas levando-se em conta a contagem populacional e dados da Secretaria Municipal de Planejamento que estimou, em 1999, cerca de 72 mil pessoas fora do mercado formal de trabalho, além das taxas nacionais de desemprego, pode-se dizer que o município enfrenta um quadro sério na questão da distribuição de renda.
A Secretaria Municipal de Ação Social estima que existem cerca de 160 mil pessoas em situação de risco pessoal e social, vivendo na linha da pobreza, com renda de até dois salários mínimos. Destas, a secretaria aponta que quase 61 mil são crianças e adolescentes de 0 a 18 anos; e cerca de 14 mil idosos potenciais usuários de assistência social.
Uma pesquisa de campo que está sendo concluida pelo Coordenadoria de Extensão à Comunidade (CEC) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) intitulada Resgate da Cidadania, uma Questão de Direito e realizada em 12 bairros carentes da cidade aponta que estes números podem ser ainda mais assutadores.
Segundo o professor-doutor e PhD em sociologia João Bastita Filho, coordenador do trabalho, embora ainda não se tenha computado todos os dados e nem feito a redação final do trabalho, já é possível vislumbrar alguns pontos preocupantes.
A primeira conclusão é que está havendo uma segregação sócio-espacial cada vez mais acentuada na cidade. A segunda é que a população de baixíssima renda está encurralada. E como o cachorro acuado no canto, ela vai morder. É só olhar os índices de violência que vêm crescendo na cidade, afirmou.
Há 26 anos pesquisando as habitações populares e com uma tese de pós-doutorado sobre favelas e cortiços de Londrina, João Batista conhece como ninguém a realidade da pobreza na cidade, com a qual convive diariamente. Segundo ele, a cidade está cercada por um bolsão de miséria que se compara ao do Nordeste.
A região Sul, a Suíça brasileira, também tem seu quinhão, e não é pequeno, de miseráveis e marginalizados . E pelo tamanho da cidade, o índice de excluídos é altíssimo, maior até que os de São Paulo, onde vivem milhões de excluídos, aponta.
Para João Batista, o quadro vem se agravando nos últimos anos pela propaganda enganosa praticada pelos governos estadual e municipais. As pessoas pensam que as cidades paranaenses oferecem qualidade de vida e são atraidas por isso. Mas é só olhar o número crescente de subempregos os camelôs no centro de Londrina são um exemplo, no coração da cidade , de subnutrição, de evasão escolar, que se percebe que são quadros estarrecedores e que qualidade de vida não é termo a ser aplicado, afirma.
João Batista afirma que toda esta população marginalizada está chegando a um ponto de saturação. A pessoa busca apenas aquilo que é justo e natural, a sobrevivência. Se o filho e são sempre mais que um tá passando fome, se não consegue manter a família alimentada, morando dignamente, vestida e saudável com aquilo que ganha por seu trabalho, tudo isso redunda em quê? Em violência furtos, roubos, homicídios , prostituição infantil, tráfico de drogas, explica.
Para ele, antes da cidade se mobilizar em torno de mais segurança, mais policiamento e construção de presídios, seria preciso uma mobilização em torno de uma reforma social profunda. Não admito construções de cadeias caríssimas como solução para segurança. Construa escolas e feche cadeias. Isso sim vai resolver. Escolas para formar, educar, alimentar a criança. Para dar uma perspectiva de vida que ela não tem hoje, critica.


