Militância Negra - Educação que abre portas
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sábado, 28 de setembro de 2013
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
Aluno do primeiro grupo do sistema de cotas para negros na Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 2005, e láurea acadêmica do curso, o doutorando em História Gilberto da Silva Guizelin, de 27 anos, está em Portugal. Ele passará um ano em terras lusitanas dando continuidade às suas pesquisas sobre relações internacionais entre Brasil e África. Também acaba de lançar seu primeiro livro, "Comércio das Almas e Política externa", fruto da dissertação de mestrado de temática semelhante.
Aos 39 anos, Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem, docente desde 2009 no departamento de Comunicação Social da UEL, ocupa há três meses, um dos cargos de maior responsabilidade de sua carreira: a coordenação do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (Cnirc), da Fundação Cultural Palmares, instituição pública vinculada ao Ministério da Cultura que tem a finalidade de preservar e promover a cultura afro-brasileira. Publicou vários livros na área de comunicação e relações raciais, entre eles "Espelho Infiel: o Negro no Jornalismo Brasileiro".
Apesar de serem de diferentes épocas e origens, ambos são representantes da pesquisa científica voltada à história do negro no Brasil e, conquistaram reconhecimento diante do empenho dispendido. Ele, nascido em Paraguaçu Paulista (SP), inicia sua carreira com otimismo e o objetivo de se tornar um professor universitário, preferencialmente, em Londrina. Ela, de São Luís (MA), com uma trajetória marcada pela militância negra, se consolida como uma das referências no fomento de políticas públicas e afirmativas do negro no País, além da docência na universidade.
Disciplinado, Guizelin lembra que por dois anos tentou ingressar numa universidade paulista no curso de Relações Internacionais, mas sem êxito. "Quando a UEL iniciou sua política de cotas, tentei vestibular para História e passei." Com dinheiro suficiente para se manter na cidade apenas por seis meses - resultado de uma poupança alimentada pelos pais desde seu nascimento -, enfrentou o desconhecido. "Percebi que tinha potencial para a área científica. E por meio das bolsas é que consegui continuar na pesquisa até hoje", destaca.
Radicada em Londrina desde 2009, Rosane tem um vasto currículo frente a diversos movimentos negros em sua trajetória, que iniciou em sua terra natal, onde ficou até pouco tempo depois da graduação. Jornalista, chegou a trabalhar em veículos de comunicação, mas foi em projetos e instituições que sua militância teve mais destaque, sobretudo com a realização do mestrado, em São Paulo.
O desafio de afirmar a própria identidade por conta de uma sociedade que "invisibiliza" a participação do negro na história do País, como define Rosane, foi uma das motivações primárias e que ganhou combate e engajamento de maiores dimensões conforme o desenvolvimento de seus estudos. "Meu desafio, agora, é em âmbito nacional."
Já o jovem Guizelin declara que as pesquisas sobre o negro e as relações do Brasil com a África também despertaram a vontade de conhecer sua própria história e, ao mesmo tempo, o resgate da verdadeira e importante participação dos negros na construção do País, contudo, ignorada pela sociedade. "Meu reconhecimento como afrodescendente me abriu os olhos para ir em busca de conquistar meus sonhos", diz.
E, assim, por meio dos estudos e da pesquisa propriamente dita, além de contribuírem para a discussão sobre o tema, mudaram o contexto de limitação escolar vivido pelos pais no passado. "Eu era e continuo sendo a esperança dos meus pais, que não tiveram a oportunidade de estudar. Hoje eu sei que, com dedicação, sou capaz de chegar onde quiser", afirma o doutorando. Os pais de Rosane não eram diferentes e investiram na educação dos seis filhos. "Meu pai sabia que iríamos conquistar participação respeitada na vida social se tivéssemos uma formação. Por isso, nunca mediu esforços para que os filhos estudassem."


