Mestre das imagens
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domingo, 12 de janeiro de 2014
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Quando veio do sertão da Bahia em um caminhão pau de arara, aos 2 anos de idade, Walter Ney era apenas um bebê aninhado no colo de uma jovem mãe em busca de melhores oportunidades no Sul do Brasil. Foi com o incentivo da avó, porém, que este "baiano caipira" começou a se arriscar no desenho e, ainda na infância, na zona rural de Londrina, deu os primeiros passos que o levariam a se tornar um homem multifacetado. Escritor, atleta, desenhista, viajante, ele reúne todas essas definições. Mas se reconhece mesmo como fotógrafo, atividade que permite exercer todas as outras habilidades e referências vividas.
"Eu era uma criança sem recursos, mas gostava de desenhar, cantar, declamar poemas... Procurava a arte da maneira que me era possível", conta. Vizinho do Albergue Noturno, ele descobriu nas pilhas de material para reciclagem que a entidade arrecadava os livros e gibis que faziam a alegria do menino descobrindo a literatura. "Foi ali que conheci Monteiro Lobato", recorda.
Dos tempos em que morava na Vila Casoni, a lembrança é do sonho de ser cartunista. Quando se deparou com um vizinho pintando em um cavalete, portanto, viu a arte materializada sob seus olhos e foi descobrir o que ele estava fazendo. O vizinho trabalhava com fotopintura e ofereceu uma oportunidade de trabalho ao jovem Ney, que por algum tempo atuou compondo, com pintura, figurinos e cenários para os personagens que deixavam no estúdio suas fotos 3x4. "Nessa época, comecei a despertar para a importância da memória afetiva", lembra ele, que depois desenvolveu extenso trabalho sobre o tema.
Aos 18 anos, já contratado como funcionário de uma companhia aérea, comprou a primeira câmera fotográfica. "Me deu vontade de fotografar a minha família", revela, dando pistas de que ali nascia o fotógrafo sensível que emociona através dos registros. Como tinha acesso a passagens para as férias, na primeira oportunidade retornou ao sertão baiano para levar à família de lá as fotos dos familiares que estavam no Sul. Décadas depois, ainda faz questão de voltar à terra natal para alimentar as raízes. "Na sala da minha casa, tenho uma foto do sertão. Ela me lembra diariamente de onde vim", diz.
Com pouco mais de 20 anos, Walter Ney passou em um concurso público e abraçou a carreira de policial federal. A estabilidade trouxe a oportunidade de investir no trabalho cada vez mais autoral e despertou nova paixão: as viagens, que ele registra minuciosamente com a câmera a tiracolo. "A fotografia me incentiva a ser andarilho", acredita o artista, que coleciona mais de 15 exposições fotográficas.
Outro talento do fotógrafo é o esporte. Ele é tricampeão mundial em salto em distância na categoria máster, que reúne atletas de alto rendimento. "O atletismo dá uma determinação muito grande, ajuda a me superar sempre", observa. O esporte, segundo ele, influencia o trabalho do fotógrafo, na medida em que prepara para a convivência com o risco. E favorece também as viagens, algumas vezes planejadas de acordo com o calendário de competições, mas que rendem os registros fotográficos pelo mundo. Em março, inclusive, ele estará na Hungria participando do mundial máster de atletismo indoor.
Com referências da música, da literatura e da pintura, Ney explica que se define como fotógrafo porque a fotografia permite representar todo o repertório acumulado pelas incursões nas diferentes linguagens. "Fotografar é um meio de expressão inerente à rotina. É como se fosse escovar os dentes", compara. E cita o fotógrafo americano Alfred Stieglitz para explicar o papel da fotografia na própria vida: "A câmera me aguardava como um piano aguarda a chegada de um músico ou a tela um pintor. Me senti mestre dos elementos e que com ela eu poderia realizar milagres. O que me interessa não é a fotografia como resultado profissional, como a resolução de um problema que outro (revista, cliente etc.) tenha. Me interesso pelo que é criado, de forma quase sagrada, do íntimo do artista, e que pode virar arte com o tempo." "Como o fotógrafo aprende a ser fotógrafo? Olhando."


