Mercado de trabalho não é justo com as mulheres
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domingo, 10 de janeiro de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
As mulheres compõem a maior parte da população brasileira em idade para trabalhar, chefiam quatro entre dez famílias do país, possuem mais diplomas de nível superior do que os homens e também decidem, em média, 80% das compras realizadas por grupos familiares. Tanto poder, entretanto, não reverte em benefícios diretos para a população feminina.
Em plena segunda década do século 21, no Brasil, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada em novembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que a elas são oferecidas menos oportunidades. Enquanto a taxa de desocupação, ou seja, pessoas fora do mercado de trabalho, é de 7,7% entre os homens, atinge 10,4% das mulheres. A maior desigualdade, porém, se expressa nos rendimentos. Enquanto os trabalhadores masculinos recebem uma média de R$ 2.044 mensais, as trabalhadoras ganham 32% menos, o que totaliza R$ 1.549 por mês. Mesmo nos estados cuja renda supera a média nacional, como é o caso do Paraná, a diferença é gritante. No estado, enquanto homens ganham em média R$ 2.330, as mulheres recebem, R$ 1.660, o que corresponde a 40,3% a menos.
Outra realidade apontada por pesquisas é a baixa presença feminina em cargos de liderança. Levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com 837 companhias brasileiras de capital aberto detectou que 66,55% das companhias não possuem mulheres na diretoria executiva e 48% não têm mulheres no conselho administrativo.
A especialista em liderança feminina Cris Kerr, idealizadora do Fórum Mulheres em Destaque, realizado no final do ano passado em São Paulo e que divulgou várias das estatísticas acima, dedica parte da vida a empoderar mulheres para que elas tenham boas oportunidades no mercado de trabalho. Com uma carreira profissional que inclui a passagem por grandes corporações, ela conviveu com uma realidade de empresas cujos funcionários eram majoritariamente do sexo masculino e as poucas mulheres tinham poucas oportunidades. "Essa experiência despertou a vontade de ajudar as mulheres a crescerem", conta ela, que organizou o primeiro fórum em 2011.
As discussões do evento buscam mostrar os resultados financeiros que as empresas podem ter quando investem nas mulheres. "Uma pesquisa do Instituto Mackinsey, por exemplo, aponta que é possível incrementar o PIB (Produto Interno Bruto) em 15% com a equidade de 50% de mulheres nos cargos de liderança", revela, lembrando que gerência não é considerada função de liderança. "Líderes são as pessoas em funções de diretoria ou acima", reforça.
Os bons resultados, segundo ela, são decorrentes da maior diversidade de pensamento. "As mulheres agregam muito em inovação e criatividade", defende. As empresas, infelizmente, ainda não valorizam este potencial. "É comum, quando há uma oportunidade de promoção fora do país, por exemplo, sequer oferecerem às mulheres por acreditarem que elas não têm disponibilidade em função dos maridos ou dos filhos", aponta, reforçando que o mesmo dilema não existe em relação aos homens. "Isso é preconceito", critica.
Por isso, a especialista defende que programas sobre equidade de gênero, quando implementadas em empresas, devem levar informações aos homens que ocupam posição de alta liderança. "São eles que precisam entender que as mulheres trazem bons resultados. Caso contrário, não compram a ideia", acredita.
Cris lembra que a igualdade de oportunidades depende também de mudanças no ambiente doméstico, onde ainda é "natural" que a mulher assuma grande parte das responsabilidades em relação à administração da casa e dos filhos. "É um absurdo a licença-paternidade no Brasil ser de apenas dez dias", critica, comparando com países europeus como a Noruega, por exemplo, onde a licença de nove meses é retirada pela mãe, em três meses, e pelo pai no mesmo período. "Nos três meses restantes, fica a critério do casal escolher quem vai tirar", pontua.
Não à toa, muitas brasileiras não voltam ao mercado após a licença-maternidade. Facilidades como flexibilização de horários ou expediente em home office ainda são exceção nas empresas, que ao contrário cobram que os gestores dediquem muitas mais horas por dia do que a jornada de trabalho convencionada. "No Brasil, há muitas empreendedoras mulheres justamente porque nos próprios negócios elas conseguem conciliar trabalho e filhos", avalia.


