O comportamento "nômade" com relação ao mercado de trabalho pode ser explicado pelas diferenças entre as gerações. O professor Rui Fava, vice-presidente acadêmico da Kroton Educacional, explica que os trabalhadores que ocupam o mercado de trabalho atual vêm de quatro gerações diferentes, com características próprias que incluem o apego – ou não – ao emprego.
Os chamados baby boomers, nascidos entre 1945 e 1960, cresceram no período pós Segunda Guerra Mundial e, na hora de escolher um emprego, privilegiam principalmente a segurança. "São aquelas pessoas que passam a vida toda na mesma empresa e acreditam que a melhor oportunidade profissional é passar em um concurso público", explica.
Já os representantes da geração X, nascidos entre 1960 e 1983, trabalham "para ganhar a vida". "São materialistas, individualistas e consumistas, querem viver bem, com conforto", analisa, acrescentando que os trabalhadores desta geração buscam reconhecimento na boa remuneração. "Eles ficam em um emprego ruim se estiverem ganhando bem." Por essas características, influenciaram "muito mal" os filhos, chamados de geração Y, nascidos entre 1983 e 1995. "Como não tinham tempo para a família, tentavam ‘comprar’ o filho com bens materiais. Acabaram criando jovens com comportamento altamente inadequado, que reconhecem as próprias potencialidades, mas não sabem lidar com o fracasso. Por isso, é muito difícil ser chefe dos nativos da geração Y", avisa.
Os jovens "Y", segundo Fava, querem ganhar dinheiro, mas buscam também realização pessoal no que fazem, o que acaba gerando infidelidade aos empregos. "Se não estão no trabalho dos sonhos, saem sem a menor dificuldade. Uma das características dessa geração no mercado de trabalho é o nomadismo", analisa, lembrando que esses jovens não conseguem dissociar trabalho de diversão. "Por isso estão sempre com fones de ouvido, escutando música. E não adianta tentar proibir esses equipamentos", observa.
Já os integrantes da geração Z, nascidos depois de 1995, de acordo com Fava, só trabalham se tiverem um propósito, porque pensam coletivamente. "Eles trabalham ao mesmo tempo em que se divertem", diz, lembrando que o fenômeno das redes sociais é marcante entre estes jovens, o que impõe um novo conceito de tempo e espaço. "O problema é que não criam vínculos. Mudam de amigos e de ídolos com facilidade", diz.
O professor destaca que, pela primeira vez, quatro gerações convivem juntas no mercado de trabalho. As gerações Y e Z possuem dificuldades na linguagem e no raciocínio lógico, que são características supridas pelos profissionais da geração X e dos baby boomers. Por outro lado, os mais jovens conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, criam mapas mentais com facilidade e são bons estrategistas.

Pai e filho
O caixa crediarista Rennan Prado Rodrigues, de 24 anos, tem um comportamento completamente oposto ao do pai, o analista financeiro Valdenir Rodrigues dos Santos, de 48, quando o assunto é permanência no trabalho. Enquanto Valdenir privilegia a estabilidade, o filho não vê problemas em mudar de emprego quando surgem novas oportunidades. Durante toda a carreira, o pai trabalhou em apenas cinco empresas, tendo ficado quase 20 anos na mesma companhia do setor de transporte turístico onde conseguiu o primeiro trabalho. "Comecei como office boy e, conforme fui estudando e me aprimorando, fui abraçando novas oportunidades e fiz carreira", conta.
Resiliente, ele permaneceu por três anos até mesmo em uma empresa de call center, num setor conhecido pela alta rotatividade. "Era estressante, mas consegui mudar de função e acabei ficando", diz o analista, que está há cinco anos no emprego atual.
Rennan, por outro lado, já acumula a experiência de seis empregos. Por vontade de ter o próprio dinheiro, começou a trabalhar aos 14 anos e, até encontrar o trabalho que considera adequado, não teve dificuldades para pedir demissão dos empregos anteriores.
No posto atual, em uma rede de varejo, ele pretende permanecer pelo menos até terminar a faculdade, que inicia no ano que vem. "Tenho afinidade com minha chefe imediata e vejo que posso ter boas oportunidades dentro da própria empresa. Não encontrei isso nos lugares que trabalhei anteriormente", diz.
Ao contrário do pai, que prefere esperar as oportunidades surgirem dentro da empresa, o jovem não tem dificuldades para pedir demissão quando está insatisfeito com as condições de trabalho. "Não sou acomodado e gosto de desafios. Procuro sempre me adaptar ao que o mercado está oferecendo", explica.

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