Em Londrina, a rotina da indústria Vencofarma, que fabrica vacinas e medicamentos veterinários, demonstra que a criação do Mercosul não trouxe benefícios práticos para os negócios. O diretor-presidente André Paleari explica que a empresa vende para todo o Brasil e também Ásia, África e América do Sul. A falta de uma política concreta em relação ao Mercado Comum do Sul, porém, exige que a indústria faça registros dos produtos em cada país onde pretende atuar. "As regras sanitárias variam, por isso, temos que fazer um registro diferente em cada lugar. Se o Mercosul funcionasse realmente como bloco, poderia haver um registro único com as mesmas regras", diz, lembrando que outros blocos econômicos já conseguiram implementar a unificação das regras. "Aqui falta vontade política", avalia, destacando que as regras também mudam de acordo com a mudança de governos, o que atrasa o processo. "Estamos há dois anos aguardando a finalização do registro na Argentina", exemplifica.
Outro problema, segundo ele, é a impossibilidade de fechar acordos bilaterais entre dois países. "Além de não ajudar, o Mercosul trava os negócios", critica o empresário, que apesar das dificuldades, exportou, no ano passado, 20% do faturamento. As vendas para o Mercosul, entretanto, representaram apenas 5% do montante.
A Venezuela é o grande mercado da Vencofarma na América do Sul. Os problemas políticos e econômicos enfrentados pelo país vizinho já interferem diretamente na previsão de exportações da empresa para 2016. Paleari antecipa que o volume de vendas externas deve cair para 17% diante da redução dos negócios com a Venezuela. "Se o Mercosul fosse de fato um mercado aberto, como definem as regras, o percentual seria mais expressivo."
A Wittur, fabricante de componentes para elevadores, possui duas plantas industriais na América do Sul: uma em Londrina e outra em Buenos Aires, na Argentina. Conforme o diretor Fernando Lajes, as taxas de importação de 0% que vigoram no bloco favorecem os negócios, pois é possível alinhar as exportações e importações entre as duas filiais.
Além da Argentina e do Brasil, a indústria comercializa componentes e sistemas para elevadores para toda América Latina. "Nossa exportação total representa até 25% do faturamento anual. No entanto, nos últimos anos, o custo de matérias-primas como a chapa de aço afetou nossa competitividade", diz.
Apesar dos bons negócios realizados com países da América do Sul, Lajes destaca que o Mercosul precisa estreitar processos e alinhar políticas econômicas para conseguir mais competitividade. "Desta forma é possível blindar o bloco e torná-lo mais forte, facilitando o fechamento de acordos comerciais a nível global", opina.

Imagem ilustrativa da imagem MERCADO COMUM - 'Tratado trava os negócios'
| Foto: Anderson Coelho



Dicas para exportar
Megumi Hayashi, analista de mercado internacional da agência de fomento Terra Roxa, destaca que as empresas da região têm muito interesse em estabelecer negócios com o Mercosul. "A facilidade de comunicação, logística e as similaridades no perfil de exigência dos mercados incentivam", afirma. Por isso, os mercados vizinhos são os primeiros que as empresas procuram quando querem adquirir experiência em comércio exterior, o que a analista observa nos atendimentos que realiza na agência e também na Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL).
A dica da especialista é investir em estudos e análises de mercado antes de partir para as vendas externas. "Não pode ser apenas uma opção quando o mercado interno está desaquecido" diz ela, para quem o principal gargalo das exportações é o medo do empresário em relação ao comércio exterior. "Para isso existem profissionais qualificados para ensinar ‘o caminho das pedras’". (C.A.)

mockup