MERCADO COMUM - Criado há 25 anos, Mercosul ainda é uma promessa
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sábado, 11 de junho de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Há 25 anos, um tratado assinado entre Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina criava o Mercosul, o mercado comum entre os países do Cone Sul que deveria fortalecer o comércio e a integração entre os membros. Mais de duas décadas depois, as experiências vividas pelo setor produtivo brasileiro indicam que o bloco ficou na promessa. Sem a unidade necessária para comercializar com blocos econômicos de outras partes do mundo, tanto a indústria como o agronegócio elegeram mercados de fora do continente como a gigante China - para apostar as fichas da exportação. Competição entre os países e falta de vontade política são apontadas como as principais dificuldades em relação à concretização do Mercado Comum do Sul. Atualmente, contrariando a tendência em relação a outros mercados, 87% das exportações de produtos brasileiros para o Mercosul são industrializados.
"O Mercosul é importante, mas não é estratégico para as cooperativas e para o agronegócio brasileiro", afirma Flávio Turra, gerente técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Enquanto as cooperativas paranaenses exportaram US$ 570 milhões para a China, de janeiro a agosto de 2015, as vendas para o Mercosul totalizaram US$ 24 milhões. "Como todos os países produzem soja, trigo e milho, há competição entre eles", afirma.
A expectativa do setor, quando o acordo foi assinado, era que os países pudessem negociar em conjunto e favorecer o comércio regional, principalmente em relação ao comércio com a China e com a União Europeia. Passados 25 anos, o fortalecimento das relações não se concretizou e o Brasil amarga, até hoje, a perda de qualquer vantagem competitiva em relação à venda de trigo. "O Brasil
abriu mão da proteção em relação à produção de trigo para favorecer a exportação de produtos industrializados", diz. Com o fim das tarifas de importação do grão, a Argentina, que tem um custo de produção menor, acabou ficando em vantagem, pois o Brasil passou a importar o grão ao invés de consumir a produção interna. "Com 25 anos de concorrência, não conseguimos recuperar a desvantagem imposta na origem", lamenta.
Atualmente, graças ao sistema de produção integrada entre suínos e frangos, estas carnes tornaram-se competitivas em relação ao Mercosul, o que abriu o mercado da Argentina para os produtos. "Não são produtos primários, mas com valor agregado", diz o gerente da Ocepar, que destaca a necessidade do Mercosul, como bloco, encontrar formas de melhorar as condições sanitárias da região, para atender países mais exigentes e vender produtos com maior valor agregado. "Se o Mercosul fosse área livre de aftosa, por exemplo, poderia vender com essa garantia", afirma.

Indústria
Reinaldo Tockus, superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e gerente de negócios internacionais da instituição, reconhece que o Mercosul facilitou a realização de negócios entre os países membros, principalmente em relação à redução das barreiras alfandegárias e burocráticas. "Mas os países continuam impondo barreiras protecionistas, o que tem sido tolerado apesar do acordo", questiona. De janeiro a abril deste ano, enquanto o Brasil exportou US$ 3,4 bilhões para os chamados países em desenvolvimento, as vendas para a América do Sul não passaram de US$ 822,6 milhões. Os principais produtos são da cadeia automotiva, o que inclui peças, componentes e automóveis completos. O superintendente defende, porém, que o maior desafio do Mercosul não é o fomento do comércio dentro do bloco, mas sim se consolidar como grupo para fechar acordos comerciais mais consistentes com outros blocos comerciais, como é o caso da União Europeia.
Há alguns anos, quando o Paraguai foi desligado do Mercosul por considerarem que que o país tinha ferido uma cláusula democrática na época do impeachment do presidente Lugo, acabou fechando um acordo individual com a União Europeia que garantiu a inclusão de seis mil produtos dentro do sistema geral de preferência. "Na prática, significa que seis mil produtos paraguaios podem entrar na Europa com alíquota zero", comenta.
Já os países do Mercosul, segundo ele, não podem fechar acordos individuais importantes, que extrapolem segmentos ou cadeias específicas. "O grande desafio para os próximos 25 anos é conquistar a coesão, funcionando como um verdadeiro bloco. O individualismo dos países acabou prejudicando. A ideia é boa, mas precisa ser colocada em prática de forma colaborativa e efetiva. O Mercosul precisa ser reavaliado para que surtam os efeitos esperados na época em que foi criado", diz.


