MERCADO COMUM - Bloco não alcançou identidade cultural
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sábado, 11 de junho de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Relevante como projeto de interesse econômico, mas incipiente como uma iniciativa de integração cultural. Para Carlos Alberto de Cotelli, coordenador e professor do Isae/FGV na área de relações exteriores e agronegócio, o grande desafio do Mercosul está na formação de uma identidade cultural para o bloco. Integração da força de trabalho e de políticas macroeconômicas que promovam unidade cambial e fiscal e o combate à inflação nos países são outras necessidades.
"O Mercosul é um projeto de integração, ou seja, busca misturar identidades distintas para atuarem na mesma direção", explica ele, destacando que toda a ideia de integração parte de um projeto econômico. "Na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial, isso foi feito a partir da comunidade econômica do carvão e do aço", exemplificou, questionando que o Mercosul, ao contrário, não teve um projeto econômico integrador como estrutura básica. "Somos países que produzem matérias-primas e queríamos ter visibilidade internacional para a região", lembra.
Tal destaque foi alcançado e o Mercosul passou a ser conhecido no contexto das nações mundiais. O lado negativo, entretanto, é que os países ainda são competitivos entre si e fazem concorrência predatória dentro do próprio bloco.
"É preciso buscar uma integração como a da Europa, que tem a melhor tradição", opina.
Outro problema do bloco da América do Sul são as ideologias conflitantes. Alguns governos defendem o livre mercado, outros divergem sobre aproximação com os Estados Unidos ou com a Europa. "Os conflitos políticos e ideológicos atrapalham a construção de um projeto econômico integrado", avalia. A solução para este impasse, conforme Cotelli, está no desenvolvimento de pesquisas no ambiente acadêmico. "Quanto mais discussão científica houver sobre os potenciais do bloco, mais argumentos contra contestações ideológicas e cheias de emoção teremos", diz ele, que sente falta de uma revista de qualificação de trabalhos específica sobre a temática do Mercosul.
O professor aponta também a falta de identidade cultural no bloco. "Não conhecemos quem somos. Nossa cultura tenta se assemelhar ao que é feito na Europa, em termos de tradição, e aos Estados Unidos, em termos de cultura midiática. Não há orgulho e identidade sobre a riqueza cultural do Mercosul, que poderia ser cultuada por nossas crianças e jovens. Ainda achamos que nossa cultura é periférica em relação à Europa e aos Estados Unidos", critica, lembrando que a identidade regional passa apenas pelo futebol e pela música.
O Brasil, em relação aos outros países do Mercosul, está em situação de desequilíbrio. Sexta maior economia do mundo e com 206 milhões de habitantes, o País é gigante perante os outros membros, que juntos não chegam à metade desta posição. "Somos o primo forte, visto que os outros países estão longe da realidade de se tornarem parte dos Brics", avalia ele, que defende a necessidade do Brasil liderar a integração. "O problema é a desconfiança, pois acabamos vistos como um imperialista regional. Mas não queremos impor valores apenas por nosso gigantismo", diz.
No bloco, o Brasil exporta produtos industrializados e importa matérias-primas, invertendo a lógica do comércio exterior realizado com outras regiões. O Paraná, segundo Cotelli, é um referencial para os países vizinhos na cultura do agronegócio. "O Isae/FGV qualifica as cooperativas paranaenses e identifica como podem contribuir em relação ao Mercosul. Os paranaenses são exemplo de produtividade e gestão", reforça.


