MEMÓRIA - Um nome para cada rua do cafezal
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sábado, 11 de maio de 2013
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Da derrubada das matas à riqueza trazida pelas lavouras de café e todo progresso que veio com a exploração da fértil terra roxa, a história de Londrina foi feita às custas de muitos pioneiros anônimos que nem sempre são lembrados nos relatos oficiais e homenagens às primeiras famílias que aqui chegaram. No distrito de São Luiz, zona sul do município, um desbravador da região resolveu prestar as devidas honras a todos aqueles que ajudaram a construir o patrimônio da família e - cada um a seu modo - contribuíram para consolidar a trajetória de Londrina.
No sítio Ouro Fino, que soma 65 anos, o agricultor e construtor Sigeyuki Hisatomi, de 73 anos, batizou com os nomes das pessoas que considera importantes as ruas do cafezal. Irmãos, cunhadas, sobrinhos, filhos, netos, parceiros e alguns amigos tiveram seus nomes gravados nas placas colocadas entre os cem mil pés de café espalhados por 21 alqueires. Grande parte dos homenageados por Hisatomi ainda estão vivos. ''Não acho que a gente deva esperar as pessoas morrerem para colocar o nome delas nas placas'', simplifica.
A ideia de nominar os 17 carreadores do cafezal surgiu depois que ele procurou a prefeitura para pedir o batismo da estrada rural - que passa em frente ao sítio - com o próprio nome. ''Me disseram que não podia porque eu ainda estava vivo. Pedi então o nome do meu pai, mas nunca deu certo. Aí decidi por o nome de quem eu quisesse nas ruas de café'', conta.
As placas foram instaladas há cinco anos, quando o sítio Ouro Fino completou seis décadas. Celebração semelhante foi feita também nos 40 anos. Nas duas ocasiões, foram plantadas árvores nativas que ajudam a recuperar a história do local.
Nascido no dia 1º de janeiro, ele nunca comemorou o próprio aniversário, que coincide com os festejos de Ano Novo. Considerou importante, porém, festejar o sítio Ouro Fino, ''a melhor coisa que já tive na vida''. Hoje o agricultor trabalha como construtor e administra propriedades. ''Construí o Colégio Ateneu (em Londrina)'', orgulha-se. Mas o sítio Ouro Fino continua no centro das atenções.
No local, onde uma parcela do cafezal soma 65 anos e ainda se avistam pés de café de mais de três metros, ele garante que nunca houve grandes prejuízos com geadas, mesmo nas épocas em que o frio arruinou o sonho do ouro verde norte-paranaense.
A chuva, generosa, sempre colabora com a plantação. Por 20 anos, o café floresceu e ofertou fartas colheitas sem exigir adubos e outros insumos. ''Nunca rezei para nada disso acontecer. Meu segredo é o trabalho'', conta o pioneiro que, intempestivo, garante que arruma muita briga ''com quem não gosta de pegar no pesado''. ''Construí 70 casas de colônia e cinco sedes de fazendas'', contabiliza.
O trabalho também está nas lembranças mais antigas de Hisatomi, que saiu da escola depois de apenas dois anos de estudo quando teve uma apendicite e repetiu de ano. ''Passei para os meus filhos essa missão de estudar'', diz. O irmão que mais prosperou na vida, Masari Utida, não por acaso dá nome à primeira rua da propriedade. O irmão mais velho, Hideto Utida, também recebeu lugar de destaque no cafezal. A esposa Rosa - que administra os negócios - e os filhos Frank e Marco foram devidamente homenageados com placas exclusivas no meio dos pés de café.
Do pai, Hisatomi recorda dos dias em que andava 30 quilômetros a pé para chegar em Londrina. ''Não era por que ele queria, era necessidade'', lembra. A mãe foi a responsável por escolher o sítio Ouro Fino para receber o primeiro investimento da família na cidade. No local, ao contrário de outros lotes, havia muitas perobas, figueiras e palmitais. ''Mamãe achou que aquela terra era boa'', conta.
O sítio Ouro Fino é como um pedaço da história de Londrina perdido em meio a lavouras de soja. A sede guarda relíquias como um trator da primeira metade do século passado e as serras utilizadas para derrubar as matas quando chegaram ao terreno há 65 anos. Detalhes da construção, como os lambrequins que remetem a números japoneses e os animais representados no teto trabalhado em peroba rosa, indicam que o local ainda guarda a imponência das sedes de fazenda de anos atrás.
Quem mora hoje na casa principal - cercada pela colônia desativada - é o parceiro Humberto Aparecido Pieroli. ''Escreve aí que ele é o meu braço direito, porque eu considero muito as pessoas que são de confiança'', diz o agricultor à repórter, enquanto cumprimenta efusivamente o trabalhador. Há quatro anos na propriedade, Pieroli se espantou quando chegou ao sítio e viu tantas placas dando nome às ruas. Hoje, conta com a ajuda delas para se localizar. ''Nunca tinho visto placa com nome em rua de cafezal.''


