"Eu corri o risco, sei que errei. Eu cortei porque tem demais", tenta justificar o proprietário da área, ao ser surpreendido pelos fiscais: multa de R$ 12 mil
"Eu corri o risco, sei que errei. Eu cortei porque tem demais", tenta justificar o proprietário da área, ao ser surpreendido pelos fiscais: multa de R$ 12 mil | Foto: Fotos: Anderson Coelho


Depois de uma semana cansativa de grandes operações em Palmas, uma equipe de quatro fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) se prepara para apurar uma denúncia pontual de desmatamento de araucária em União da Vitória. A cidade abriga a sede do escritório regional do órgão responsável pela fiscalização nas regiões Sul, Centro-Sul e parte dos Campos Gerais. Lá, as autuações por desmatamento são diárias.

Após cerca de 10 minutos pela Rodovia do Xisto, sentido Paulo Frontin, os fiscais pegam uma estrada vicinal com destino à propriedade indicada. Pelo caminho, eles pedem informações, mas as respostas quase nunca os ajudam. "Quando eles [moradores vizinhos] percebem que é fiscalização, desconversam. Ninguém conhece ninguém, não sabem indicar o caminho", ironiza o chefe regional Arty Coelho de Souza Fleck.

A caminhonete 4X4 atravessa um grande lamaçal. "Se agarre aí, piazada", adverte o motorista antes de pisar fundo no acelerador. Na caçamba, outros dois fiscais se equilibram como podem e firmam os olhos no horizonte, atrás de vestígios de desmatamento. Vencido o vale encharcado, a caminhonete dança sobre a grama podre do pé de uma colina. A partir dali, a subida teria de ser a pé.

Os fiscais seguem marcas recentes de pneus deixadas no descampado. O olhar apurado de Antonio Carneiro Junior confirma que eles estão no caminho certo. "Está vendo isso aqui? É casca de araucária. A máquina arrasta a tora do pinheiro e esses pedaços são deixados para trás", explica à reportagem. Mais cinco minutos de caminhada morro acima, o barulho do motor de um trator vindo de dentro de uma área de mata fechada deixa os fiscais agitados.



Eles se dividem e passam a se comunicar por sinais, para evitar que o infrator perceba a aproximação. A reportagem segue Carneiro Junior, que se embrenha na mata, pelo caminho mais difícil. Fleck segue os fiscais Giancarlo Mira Otto e Gilberto Feldhaus por um caminho aberto entre a mata. "Cuidado com essa taquara porque ela corta mesmo", alerta Carneiro Junior. Transpostos um córrego, uma cerca de arame farpado e trechos de mata fechada, o fiscal deixa a floresta a menos de 10 metros do homem no trator. "Nem percebeu a gente ainda", orgulha-se.

É chegada a hora da abordagem. Pelo outro lado, os demais fiscais fecham o cerco e configuram o flagrante. As pistolas permanecem no coldre. Não há necessidade do uso. Sem reação, o proprietário da área confessa ter derrubado cerca de 25 araucárias nativas. "Eu corri o risco, sei que errei. Eu cortei porque tem demais", tenta se justificar. Depois de limpa, a área seria destinada ao cultivo de erva-mate.

MEIO AMBIENTE - Todo dia uma autuação
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A autuação termina com multa de R$ 12 mil ao dono da propriedade, que também responderá pelo crime ambiental. Fleck orienta o rapaz para que procure o Ibama antes de desmatar. "Ele poderia ter conseguido autorização para abrir uma área deste tamanho, que não é tão grande, pois algumas espécies permitem o manejo", relata.

Para Fleck, apesar de grave, a ocorrência acompanhada pela reportagem é "coisa pouca" se comparada às operações deflagradas na região de Palmas. "Lá é bicho feio. Já pegamos situações de mais de 300 pinheiros derrubados. São clareiras gigantes nas últimas áreas contíguas de floresta de araucária no Estado", lamenta. Além da araucária, outra espécie visada é a imbuia, que em alguns casos, a madeira pode render até R$ 20 mil o metro cúbico.

Além de contar apenas com outros três fiscais para patrulhar uma área tão extensa, Fleck relata que alguns artifícios utilizados pelos infratores dificultam ainda mais os serviços. Segundo ele, para não chamar atenção, os proprietários deixam uma faixa de mata próxima às estradas para dificultar a visualização dos fiscais. "Eles mantêm uma cortina de vegetação com 50 ou 100 metros ao longo das estradas e vão 'comendo' tudo por dentro", conta.

Nas áreas mais críticas, além da fiscalização terrestre, os fiscais também fazem a varredura aérea, em um helicóptero. No entanto, este tipo de operação ocorre com pouca frequência. "Do helicóptero não escapa nada. A gente marca as coordenadas no GPS e depois volta para fazer as autuações." No final do dia, os fiscais torcem para que o tempo continue firme para que eles possam retomar as grandes operações pela região na próxima semana.

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