MEIAS VERDADES - 'Boato é comportamento natural'
Segundo a psicóloga Lídia Weber, doutora em Psicologia e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob o ponto de vista da Psicologia Evolucionária, uma boa fofoca, ou boato, é uma estratégia para construir relacionamentos e pode acrescentar um aspecto divertido às interações interpessoais. Ela explica que estudiosos da evolução humana dizem que o boato é um comportamento natural e existiu desde que dominamos a linguagem falada.
"Não importa se a fofoca é falada, tuitada ou fotografada no Instagram, saber algo de outros aproxima as pessoas. Não é à toa que revistas de fofocas vendem tanto", analisa.
Ela ressalta que as fofocas on-line são abundantes. "O primeiro que coloca uma certa notícia no Facebook pode ser compartilhado inúmeras vezes. Ver seu nome compartilhado gera um certo poder, muito apreciado pelo ser humano, pois somos seres sociais por natureza, queremos atenção dos outros, se possível também amor."
Muitas vezes, no entanto, o boato pode ser usado para prejudicar terceiros. "Se uma pessoa tem qualidades, bom desenvolvimento pessoal e sabe lidar com relações interpessoais, ela vai conseguir atenção e amor suficientes de pessoas ao seu redor. Se uma pessoa não é agradável, se não tem habilidades sociais boas, se não tem nada de interessante para mostrar aos outros e, assim, ser gostada por outros, ela pode emitir comportamentos estranhos, negativos, mentir, exagerar, tudo para ter a atenção", lista.
"A princípio, a pessoa que faz uma fofoca pensa em dar um colorido às interações mundanas. No entanto, essas mesmas atitudes podem servir para denegrir algum desafeto, mostrar poder ao saber de um fato muito exclusivo, magoar outra pessoa ao saber que a fofoca vai se espalhar e neste caso o sujeito pode inventar ou seja, mentir", completa.
O boato, diz Lídia, pode até ter uma função positiva, como no caso de pessoas que indicam receitas não comprovadas cientificamente. "É o caso do amigo que indica água com limão pela manhã, se não curar, mal não vai fazer. Outro exemplo de boatos são os movidos pela ignorância. Esse tipo existe aos montes na internet partilhados 'inocentemente' por milhares que nem se dão ao trabalho de verificar se aquilo tem fundamento. Antes, ficava-se sabendo da opinião de outro em uma conversa, agora as besteiras, preconceitos, maldades, ficam à vista de todos na internet."
Lídia lembra que também é necessário analisar quem mais acredita em boatos. "Há pessoas que pesquisam o assunto em sites crédulos, mas há aquelas que, em sua história de vida, são mais crédulas, que acreditam mais em misticismos e não precisam de 'provas'. Essas tendem a acreditar mais em boatos em geral", diferencia. "Como em qualquer outro comportamento, a fofoca pode ter diferentes funções e cada caso precisa ser analisado separadamente. O que precisamos é ensinar nossas crianças a questionar o que é dito, entender a diferença entre um fato e a opinião de alguém sobre aquele fato." (C.F.)





