MEDO CAUSA SILÊNCIO SOBRE TEMA DA FRATERNIDADE
Vidas sim, drogas não!, tema da CF 2001, é amplamente discutido na base da Igreja Católica mas ganha pouca repercussão entre a população brasileira
Um tema corajoso, mas que amedronta. É com esta frase que o coordenador do Fundo Nacional da Solidariedade da Cáritas Brasileira, Vitélio Paza, define o tema da Campanha da Fraternidade 2001, Vidas sim, drogas não! O órgão, com sede em Brasília, que pertence a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), coordena as ações sociais da Igreja Católica.
O tema não atingiu a mesma repercussão na sociedade e na mídia como nos anos anteriores. Mas, para a Igreja, o assunto tem o mesmo envolvimento dos fiéis e das pastorais, especialmente as de educação, família, juventude e dos adolescentes.
Segundo Paza, apesar das drogas estarem infiltradas em todas as classes constituídas de família e merecer o envolvimento da sociedade, o assunto esbarra no receio ou no constrangimento de estar acontecendo dentro de nossas casas. Ele destaca as drogas lícitas, como o álcool e o fumo que causam enormes prejuízos à vida familiar , que não são encaradas e tratadas com a seriedade que exigem. Somos uma sociedade hipócrita, nós mesmos predispomos os nossos filhos aos vícios , completa Mario Furtado, coordenador do movimento Amor Exigente, em Londrina, que trabalha no apoio às famílias que vivem o problema.
O medo, na opinião do padre Mario Dwulatka, coordenador da ação evangelizadora da diocese de Ponta Grossa, reflete até mesmo nos órgãos diretamente ligados ao assunto. O Conselho Municipal de Entorpecentes da cidade foi convidado para integrar a equipe de coordenação da CF, mas não atendeu aos convites, segundo Dwulatka.
A presidente do Conselho, Márcia Hilgemberg Elias, informa, entretanto, que não estava em Ponta Grossa quando a Igreja procurou o Conselho. Mas conforme Márcia, ela própria parabenizou a iniciativa da Diocese através dos meios de comunicação e colocou o Conselho à disposição da Igreja, para o desenvolvimentos de novos trabalhos. Não temos medo algum. Ao contrário, trabalhamos muito a questão, pois é essa a nossa obrigação, justifica Márcia. Já a CNBB, segundo Paza, foi parabenizada pelo Departamento de Entorpecentes pela coragem de abordar o tema de maneira pública.
O que mais causa preocupação é o aumento do consumo de drogas entre as crianças e os adolescentes. Segundo pesquisa realizada em 1997 pelo Centro Brasileiro de Informação Sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) em 10 capitais brasileiras, o percentual é altíssimo em crianças com idades entre 10 e 12 anos.
Da população pesquisada, 51,2% usaram álcool, 11% experimentaram o fumo, 7,8% utilizaram solventes, 2% usaram ansiolíticos e 1,8% provaram anfetamínicos. Segundo dados da Secretaria de Pastoral da Arquidiocese de Curitiba, num pesquisa realizada nas escolas da rede estadual de educação, 83% dos alunos de 1º e 2º graus já experimentaram o álcool. Entre os jovens até 15 anos, 60% já tiveram contato com outras drogas.
Estes números compõem o texto-base da Campanha da Fraternidade 2001 e estão sendo divulgados durante a Quaresma em todo o País, com o objetivo de conscientizar e alertar os cristãos para a questão. A liturgia das missas trabalham o tema, além das discussões realizadas pelos diversos grupos da Igreja.
Na Arquidiocese de Curitiba, foram elaboradas cartilhas com linguagem mais simples para tornar o assunto acessível a todos os segmentos da sociedade. É preciso entender toda a complexidade do tema para que tenhamos ações concretas, justifica Carmem Lúcia Izquierdo, da Secretaria de Pastoral da Arquidiocese. Estão sendo elaborados também materiais informativos e lista das casas de recuperação existentes no Estado. A campanha tem o apoio das escolas públicas e católicas, que oportunizam aos alunos a discussão do tema.
As ações práticas da CF, classificadas pela CNBB como gesto concreto, estão programadas para acontecer durante todo o ano, apesar da CF 2001 terminar na Páscoa. No Domingo de Ramos será realizada a Campanha da Solidariedade, quando 40% dos recursos obtidos serão enviados ao fundo nacional para o financiamento de ações pelo País, coordenadas pela Cáritas Brasileira. O restante ficará nas dioceses para investimentos nos programas existentes e construção de novas casas de recuperação, conforme propõem as diocese de Cascavel e Foz do Iguaçu.
Há ainda o compromisso de todas as dioceses do País na instalação da Pastoral da Sobriedade nas paróquias, para atuar na recuperação e na inserção dos dependentes na família e na sociedade.





