A prescrição equivocada de metilfenidato para crianças não portadoras de TDAH atinge em grande escala as vítimas de violência doméstica. A constatação é da psicanalista e pediatra Luci Pfeiffer, voluntária do grupo multidisciplinar de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Dedica) em Curitiba. No ambulatório do Hospital de Clínicas, onde profissionais voluntários atendem, em média, 360 crianças vítimas de violência grave, 97% daquelas com mais de 4 anos vieram de outros serviços já tomando o medicamento.
''São meninos e meninas que não conseguem aprender porque a cabeça está ocupada pelo sofrimento, mas não significa que possuam deficit de atenção. Quando tomam o remédio, elas apenas ficam anestesiadas e passam a sofrer caladas'', critica.
No dia a dia, ela observa que os pais - principais violadores - exigem a medicação porque não querem assumir a responsabilidade sobre o problema. Já as escolas, segundo ela, pressionam pela prescrição porque consideram que essas crianças ''incomodam''. ''O remédio funciona como 'amarras químicas'. Quem deveria sofrer intervenção é o agressor, e não a criança'', defende.
Luci, que prefere falar em ''deslocamento de atenção'' ao invés de deficit, explicou que o metilfenidato pode funcionar em casos comprovados de hiperatividade. Esse diagnóstico, assim como de outras psicoses infantis, porém, é raríssimo. ''Criança agitada que se interessa por tudo, mas que consegue montar um quebra-cabeça ou chega ao fim de um jogo no computador não é hiperativa.'' (C.A.)

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