Maria, personagem de
uma história triste
Edson MazzettoMaria Marta de Souza, 35 anos e 4 filhos, dos quais 3 falecidosMaria Marta de Souza, 35 anos, que prefere ser chamada ‘‘simplesmente de Maria’’ e deu à luz quatro filhos, dos quais três são falecidos, é uma das várias mulheres que catam papel e outros materiais em Cascavel.
Ao ser encontrada pela reportagem da Folha e convidada a falar de sua situação e a de sua família, ela começou a chorar:
– Moço, eu venho de perder um filho naquele incêndio em Maringá.
O incêndio aconteceu no dia 17 de março, destruindo a casa de João de Souza, 76 anos, pai de Maria, que ao mudar de Maringá havia deixado o filho Alessandro, 14 anos, morando com o avô.
Além de Alessandro, morreram carbonizados três primos dele, também menores. Outros dois filhos de Maria morreram ‘‘de doença’’, conta ela. Restou um de 12 anos, que ela ‘‘talvez’’ integre ao ‘‘Simplesmente Cidadão’’.
A mulher tem dúvida sobre o programa:
– Sei não se dá certo...
Depois, a mulher revela o motivo da dúvida: ela e o marido, de 36 anos, também catador, moram no próprio depósito de papel, ‘‘por vontade do homem que compra as coisas que a gente cata’’. Maria indaga:
– Lá no tal programa, vão dar casa?
Além disso, há um problema acessório que ela diz ‘‘não poder resolver’’. O garoto, que não cata papel, ‘‘prefere também não estudar’’. E esta é uma das exigências do ‘‘Simplesmente Cidadão’’.
Maria e o marido ganham ‘‘uns R$ 25 mil (sic) por semana’’, conta, acrescentando que, antes, era empregada doméstica e entrou nessa vida ‘‘porque fiquei desnorteada com uns problemas que tive lá em Maringᒒ.
Nas ruas, ela enfrenta ‘‘muita gente sem educação, que não trata bem a gente’’. Unhas pintadas com esmalte salpicado de brilho, insiste:
– Vai ver, no fundo a gente é melhor que eles.
Nos braços e pernas, ela tem feridas. O repórter insiste em levá-la a um posto de Saúde, mas Maria diz que ‘‘não precisa, tô acostumada, não vai fazer mal’’. (Paulo Pegoraro)

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