O desprezo a uma recomendação técnica insistentemente repetida por três dias seguidos pode ser responsável pela perda de US$ 500 milhões, que foram engolidos pelo mar na manhã da última terça-feira, 20 de março. Obscurecida até a data do naufrágio da gigante de 33 mil toneladas, 120 metros de altura e 120 metros de comprimento, a notícia sobre os relatórios emitidos pelos responsáveis pelo corpo técnico da plataforma P-36, da Petrobras, só foi divulgada na quinta-feira, dois dias depois do desfecho fatal de uma história que começou uma semana antes.
Os documentos recomendavam a necessidade de parar a produção para troca de peças, devido à detecção de pressão anormal no sistema de eliminação de gases da plataforma. O primeiro boletim comunicando a anormalidade foi emitido na segunda-feira, 12 de março. Outros relatórios nos dias seguintes reforçaram a recomendação. Mas o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, e o diretor de Exploração e Produção, José Coutinho Barbosa, se defendem: ambos garantem que só ficaram sabendo dos boletins na data em que a P-36 afundou.
Na madrugada de 15 de março, uma quinta-feira, três dias depois da emissão do primeiro boletim, as 175 pessoas que trabalhavam na plataforma flutuante da Petrobras, instalada na Bacia de Campos, em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, foram assombrados por três explosões num intervalo de cerca de 20 minutos. Nove desses trabalhadores desapareceram e só depois foram dados como mortos, embora seus corpos não tenham sido achados. Um morreu no momento das explosões e outro ficou gravemente ferido. Uma semana depois ele faleceu. A primeira explosão ocorreu por volta de 0h20 e atingiu uma das sustentações da P-36, que ficou adernada num ângulo de 30 graus.
Já capenga, a plataforma gigante – é a maior do mundo – mereceu, após as explosões, ações e manifestações das mais evidentes possíveis. Até a hipótese de sabotagem foi ventilada e, de imediato, descartada pela Petrobras. Tentativas de salvar a P-36 se mostraram inúteis. No dia 19, uma declaração mostrou a real situação: ‘‘A notícia não é muito boa. Na verdade, a P-36 está vivendo seu pior momento, mas continuamos com esperanças de que a unidade possa ser recuperada’’, disse o gerente-geral da unidade de negócios da Petrobras na Bacia de Campos, Carlos Eduardo Bellot.
Era o aviso de que os dias da P-36, avaliada em US$ 400 milhões mas segurada em US$ 500 milhões, estavam contados. Já no dia 20, às 10h25, a gigante, já decaída, começou a se movimentar com um grande barulho nas águas. Em menos de 10 minutos foi totalmente tragada, a 125 quilômetros ao longo do litoral do Estado do Rio de Janeiro. Com a enorme estrutura de aço desceram 1,5 milhão de litros de petróleo a uma profundidade de 1.360 metros.
Na mesma data do naufrágio, o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, evidenciou que realmente não tinha palavras para avaliar o acidente e suas consequências. ‘‘Frustradíssimo e de luto’’, destacaram os meios de comunicação após entrevista com Reichstul. Não houve quem ousasse perguntar a qual situação o presidente se referia: os US$ 500 milhões cobertos pela água, o prejuízo estimado pela Petrobras de US$ 50 milhões de dólares por mês, correspondentes à produção de 84 mil barris por dia, ou a morte de 11 funcionários da companhia.
O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), através de seu presidente, Hamilton Nobre Casara, também esqueceu o seu papel e se entregou a um ato de solidariedade. ‘‘Não falamos em multa. O momento é de solidariedade com um órgão (a Petrobras) que sempre prestou importantes serviços ao País’’, disse.
Nesse ato, o Ibama desconsiderou que já na terça cerca de 350 mil litros de óleo manchavam o oceano, segundo o próprio superintendete de Meio Ambiente da Petrobras, Irani Varella. No mesmo dia a empresa emitiu nota à imprensa, comunicando que já haviam sido recolhidos 339 mil litros. ‘‘Supomos que 1,2 milhão de litros de diesel e óleo cru já vazaram, mas a maior parte já deve ter evaporado’’, afirmou.

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