MÃO DE OBRA - Pleno emprego leva à recusa de vagas
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de dezembro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
O metalúrgico Cristian da Silva, de 34 anos, começou no início do mês a trabalhar como auxiliar de montador em uma indústria metalúrgica de Londrina. Contrariando tendência do mercado, o trabalhador viu na vaga uma boa oportunidade de emprego, bem melhor que o serviço pesado de carga e descarga que exercia na empresa anterior. Silva é uma exceção. Em tempos de pleno emprego, com a oferta de vagas superando a mão de obra disponível em muitos setores, há cada vez menos gente disposta a encarar jornadas que incluem trabalho em turnos, escalas de fim de semana e salário inicial baixo.
Apenas no Sistema Nacional de Empregos (Sine) de Londrina, há uma oferta de aproximadamente 500 vagas mensais para a função de auxiliar de produção. ''Sempre temos vagas. Muitas vezes, encaminhamos os candidatos, eles ligam antes para a empresa e, ao conhecerem as condições de trabalho, não aparecem para a entrevista'', explica Ana Carolina Borrero Cardoso, do setor de captação de vagas do órgão.
Segunda ela, as vagas são recusadas mesmo pelos candidatos com pouca qualificação. ''Muitos dizem preferir empregos no comércio, mas neste setor os empregadores são mais exigentes'', constata.
Outro setor que enfrenta dificuldades para encontrar trabalhadores é o de supermercados. Ângela Carstens, coordenadora estadual de intermediação de mão de obra no Sine do Paraná, conta que apenas no Sine de Curitiba há uma oferta de 174 vagas para caixas de empresas supermercadistas. ''O salário médio é de R$ 1 mil, além dos benefícios. Mesmo assim, não conseguimos preencher.''
Ela observa que o Estado tem hoje 15.784 vagas abertas apenas pelo Sine. ''É um volume grande. Como tem muita oportunidade, os candidatos conseguem escolher, abrindo mão das funções com salários mais baixos e horários 'puxados''', avalia.
Lenina Formaggi, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese), do Paraná, analisa que, há alguns anos, estas vagas seriam facilmente preenchidas porque havia mais oferta de mão de obra que empregos. ''Como a economia cresceu, os setores que aumentaram os salários conseguem mão de obra com mais facilidade'', afirma.
O setor da construção civil, segundo ela, é um exemplo. Além de terem aumentado a remuneração dos trabalhadores, os empresários investem em qualificação e tecnologia para tornar o serviço menos pesado. O mesmo acontece com a indústria da transformação que, além de bons salários, garante boas condições de trabalho.
Para a economista, a atual conjuntura impõe aos empresários a necessidade de melhorar a qualidade dos empregos. ''A economia está crescendo, as empresas estão produzindo mais. A tendência é aumentar a remuneração'', diz ela, acrescentando que ''quem oferta remuneração abaixo do piso regional dificilmente terá a vaga preenchida.''
Lenina também discorda da tese de que os trabalhadores preferem ficar recebendo seguro-desemprego ou benefícios como bolsa-família ao invés de buscarem recolocação no mercado. ''No caso do seguro, quem tem muita rotatividade de trabalho não consegue usufruir. Já as bolsas atingem apenas a população muito carente. O valor pago é baixo, não garante o sustento de uma família. Para esse público, é preciso oferecer qualificação para que consigam aproveitar as oportunidades do mercado de trabalho'', defende.
De acordo com a economista, a baixa remuneração e a falta de qualificação são problemas estruturais do atual mercado de trabalho. O primeiro só pode ser resolvido com aumento dos salários. Com relação à qualificação, além da educação oferecida pelas próprias empresas, ela defende o investimento nas escolas técnicas.


