'MALUCOS DE ESTRADA' - Sem lenço e sem documento
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de dezembro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Quem nunca sonhou em sair pelo mundo com a mochila nas costas, conhecendo lugares e pessoas, sem compromisso com o trabalho formal, ''sem lenço e sem documento'', como cantou Caetano Veloso? O que para muita gente não passa de uma utopia da juventude é o estilo de vida adotado por uma pequena parcela que decidiu fazer da estrada a sua casa. Chamados de hippies por causa da aparência alternativa e o hábito de fazer e comercializar artesanato, eles preferem ser identificados como ''malucos de estrada''. Pessoas como o artesão, fotógrafo e documentarista Rafael Lage, 31, que aos 18 anos ganhou a estrada, conheceu a realidade destes nômades e, atualmente, busca financiamento colaborativo para realizar um documentário sobre essa identidade cultural.
Lage conta que cresceu em uma família de classe média em Belo Horizonte (MG), mas, aos 16 anos, abandonou a escola por não acreditar no estilo de vida convencional. ''Eu sabia o que eu não queria'', afirma ele, que nesse período se aproximou dos artesãos da Praça Sete, em Belo Horizonte, e em dois anos estava na estrada com uma mochila e um alicate de artesanato.
Entre 1998 e 2009, ele levou uma legítima vida de ''maluco de estrada'', viajando de bicicleta e trabalhando com artesanato e malabares. ''Quando voltei a Belo Horizonte, senti um 'vazio'. Meus amigos e minha família não sabiam o que eu tinha feito. Foi assim que comecei a fotografar'', conta ele, que desde então dedica-se a documentar os viajantes, até então fotografados em contextos que tendiam à folclorização ou à marginalização.
Quando resolveu expor as fotos na Praça Sete, teve todo o material apreendido pela prefeitura. A partir daí, passou também a documentar a violência contra os artesãos, que resultou no documentário ''Criminalização do Artista''. O filme foi enviado para Ministério Público, corregedoria da prefeitura de Belo Horizonte, Defensoria Pública e outros órgãos. ''Após audiências públicas e ação judicial, a Justiça reconheceu a liberdade de expressão dos artistas e mandou devolver todos os materiais apreendidos aos artesãos.''
Colaborativo
Depois desta experiência, Lage e as pessoas que integram o coletivo ''Beleza da Margem'' decidiram filmar o documentário ''Malucos de Estrada'', cujo objetivo é documentar a cultura dos artesãos nômades que escolhem viajar pelo mundo mostrando seu artesanato ou praticando arte de rua. Para conseguir por o projeto em prática, o coletivo aposta no financiamento colaborativo, através de contribuições espontâneas organizadas em um mecanismo disponível no Facebook. Se o valor de R$ 66 mil não for atingido, o dinheiro será devolvido aos doadores. O prazo para conseguir os recursos é 6 de janeiro.
Apesar de confundidos com hippies, Lage explica que os ''malucos de estrada'' ou ''malucos de BR'' não gostam da denominação. ''O movimento hippie já chegou traduzido ao Brasil e, com o tempo, se reconfigurou. Os artesãos nômades não se reconhecem como hippies, preferem 'malucos de estrada''', conta, enfatizando que esta cultura se diferencia por alguns ''aplicativos''.
'Rádio-cipó'
Um deles é o mangueio: a forma como apresentam o artesanato e fazem trocas. ''O artesanato é uma ferramenta política anticapitalista que oferece a subsistência'', considera. Além disso, é comum se encontrarem nas ''pedras de maluco'', que são os locais onde se reúnem para vender o artesanato (como o trecho do Calçadão de Londrina em frente ao Teatro Ouro Verde). ''É lá que ficam sabendo sobre hospedagem e comida barata'', exemplifica. Nas pedras, funciona a chamada ''rádio cipó'', ou conversas nas quais são contadas histórias que vão sendo passadas para frente. ''Além disso, tem a questão da matéria-prima, que revela a rota do artesão pelo País.''
Lage afirma que o documentário tem o objetivo, também, de esclarecer a confusão entre os ''malucos de estrada'' e andarilhos sem posicionamento ideológico que identificam no estilo de vida uma oportunidade de subsistência. Outra confusão comum é com mochileiros, que viajam por um tempo e depois voltam para casa. ''Os 'malucos de estrada' têm preconceito contra os chamados 'hippies-cartão'. Eu pessoalmente acho que a experiência de viajar é sempre transformadora'', opina.
Independentemente da motivação, ele acredita que sempre vão existir pessoas curiosas sobre o estilo de vida dos ''malucos''. ''Tem gente que fica um tempo na estrada, se reinsere na sociedade e leva a contracultura para outras esferas.''
Serviço:
Para contribuir para a realização do documentário ''Malucos de Estrada'', acesse www.mobilizefb.commalucodeestrada ou www.belezadamargem.com . O prazo termina no dia 6 de janeiro de 2013.
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