Maioria experimenta álcool no ensino fundamental
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sábado, 13 de julho de 2013
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Antes mesmo de terminar o ensino fundamental, a maioria dos adolescentes brasileiros já experimentou bebidas alcoólicas. É o que aponta a atual edição da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE 2012), realizada por Ministério da Saúde e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo, divulgado neste ano, identificou que 66% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental, com idade média de 14 anos, provam bebidas alcoólicas pela primeira vez nesta fase da vida. Esta é a mesma realidade investigada pelo Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis) do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Por isso, a instituição está adaptando para o Brasil a metodologia do School Health and Alcohol Harm Reduction Project (SHAHRP), que, através de uma abordagem mais realista e menos moralista do problema, conseguiu reduzir em 20% o consumo de álcool entre jovens desta faixa etária na Austrália.
O que esse projeto tem de diferente é o fato de apostar na capacidade do adolescente de fazer escolhas mais seguras quando estimulado a isso. "Nas abordagens, discutimos a redução de riscos e danos relativos ao uso das bebidas alcoólicas a partir de temáticas mais interessantes aos adolescentes, incentivando-os a tirar suas próprias conclusões", explica a pesquisadora Tatiana Amato, mestre e doutoranda pelo departamento de psicobiologia na área de medicina e sociologia do abuso de drogas da Unifesp. Segundo ela, o início do consumo ocorre no final do ensino fundamental, com pico aos 15 anos, justamente na transição para o ensino médio. "Quando começa-se a beber nesta idade, a tendência é aumentar com o passar dos anos", afirma.
Por isso, o programa defende iniciativas de prevenção ao consumo do álcool nas turmas do 8º ano, quando a maioria dos jovens ainda não teve o primeiro contato com as bebidas. Mesmo nesta fase, o estudo australiano identificou que a abordagem focada na abstinência tem pouca adesão entre os adolescentes. "Quando falamos para não beber, o conselho entra por um ouvido e sai por outro", exemplifica Tatiana. Conversas francas sobre os riscos das bebidas e o que fazer para se proteger, por outro lado, se mostram mais eficientes na prevenção.
Entre abril e junho deste ano, a pesquisadora realizou intervenções com adolescentes de quatro escolas da capital paulista. O conteúdo das conversas incluiu possíveis consequências do uso do álcool. Os medos mais relatados dizem respeito ao envolvimento em brigas, relações sexuais sem proteção e se arrependerem do que fizeram quando estavam bêbados a famosa "ressaca moral". "Esses fatos assustam mais do que o risco de dependência, até porque acontecem no dia seguinte", destaca, acrescentando que enquanto os pais temem que os filhos se envolvam em graves acidentes de trânsito, os adolescentes temem serem alvo de fofocas no dia seguinte à bebedeira.
O papel dos adultos na mediação das conversas é fundamental. "Quando os professores foram abertos e diretos, sem tratar o problema de forma moralista, a avaliação em relação à dinâmica foi mais positiva", comenta. Tatiana explica que, na conversa, eles sempre deixam claro que a forma mais segura de se prevenir contra os riscos é não consumir bebidas alcoólicas. À medida em que as discussões caminham para a negação desta possibilidade, porém, cabe aos adultos mediarem para propor outras opções seguras.
Uma orientação básica é planejar a volta para casa após as festas, para não cair no risco de pegar carona com pessoas alcoolizadas. Táxi, caronas com pais de amigos e transporte público são propostas como opções mais seguras. Tomar bastante água e, quando for organizar uma festa, incluir a compra de bebidas não alcoólicas são outras alternativas bem aceitas pelos adolescentes, assim como se alimentar antes de beber. "As meninas, principalmente, relatam que a companhia de amigas previne comportamentos indesejáveis, como ficar com quem não queriam", diz.
Tatiana também afirma que a pressão dos amigos para consumir álcool se sobressai ao discurso sobre os riscos. "Quem nunca bebeu mantém o discurso de que se trata de uma escolha pessoal, mas os que já consumiram reconhecem a influência dos amigos", revela. Entre os pais, a psicóloga percebe que aqueles que impõem limites claros com relação à bebida, oferecem suporte emocional e não condenam eventuais experiências com álcool acabam conseguindo resultados mais efetivos na prevenção dos riscos.


