Mais de 80 vilas, 43 quilômetros quadrados e gente suficiente para encher duas cidades de Campo Mourão. Os números superlativos da CIC (Cidade Industrial de Curitiba), maior bairro da capital do Estado, são reflexos de sua concepção inicial — parte de um projeto de industrialização dos anos 1970 que estava sintonia com um movimento nacional de atração de multinacionais.

A avenida das Indústrias é uma das principais vias da CIC
A avenida das Indústrias é uma das principais vias da CIC | Foto: Rafael Costa

Suas rodovias e longas avenidas pouco propícias a pedestres, grandes instalações industriais, terrenos vazios e galpões sublinham esta vocação. Mas também dividem a paisagem com conjuntos habitacionais, vilas não planejadas, ocupações irregulares em situação de vulnerabilidade extrema e todos os desafios sociais e ambientais que nascem dessa combinação.

“É um minimundo, que tem todos os problemas que se possa imaginar. Tem a altíssima tecnologia das grandes empresas, problemas de segurança, logísticos, urbanísticos, educacionais — tudo presente num mesmo bairro”, descreve João Barreto Lopes, diretor administrativo da Aecic (Associação das Empresas da Cidade Industrial de Curitiba) — entidade criada em 1977 por dirigentes de empresas para lidar com problemas que já surgiam na recém-criada área industrial da cidade.

Barreto lembra que o impacto da criação da CIC, em 1973, gerou um aumento significativo de investimentos no Estado. Segundo a Aecic, as indústrias que se concentraram ali chegaram a representar 25% da arrecadação de ICMS do Paraná.

Logo no primeiro ano, conforme listou o economista da UFPR Orlando Devai em sua tese de doutorado sobre investimento estrangeiro no Paraná, instalaram-se na área empresas como Siemens, New Holland e Philip Morris. Até o fim daquela década, viriam Bosch, Furukawa, Kawasaki e Sony. O cenário e as prioridades para a Cidade Industrial, contudo, foram mudando.

“Há alguns anos, a CIC representou cerca de 60% do segmento industrial do Paraná. Hoje não é mais assim, porque a Região Metropolitana cresceu muito. Também tivemos um grande crescimento em cidades do interior, como Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa e outras menores, que tiveram considerável desenvolvimento econômico e ajudaram a pulverizar o crescimento. Mas a CIC ainda é uma das forças do Estado”, conta.

Alberto Paranhos, coordenador da revisão do zoneamento de Curitiba no Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), conta que os avanços e recuos da CIC ocorreram em função dos movimentos econômicos da cidade e do País. A desconcentração citada por Barreto foi causada por fatores como as transformações da própria indústria — que, em segmentos como a tecnologia, por exemplo, não precisava necessariamente se instalar em uma zona industrial. “Ao mesmo tempo, a cidade começou a desenvolver outras fontes de geração de emprego e renda, como serviços”, conta Paranhos. “Há uma quebra do crescimento industrial no País todo na medida em que indústrias, especialmente devido ao modelo de agroindústria que o Brasil adotou, acabaram ficando mais próximas do agro do que da cidade”, explica.

Os esforços dos governos, que haviam contribuído para atrair grandes indústrias por meio de incentivos e promoção nos primeiros anos, também passaram a ter outros focos.

Grandes áreas acabaram ficando vazias até hoje — fato agravado também pela saída de empresas da CIC. “Várias indústrias grandes se fragmentaram ou saíram, porque o terreno ficou valendo muito”, conta Paranhos.

Ao longo desta história, a CIC também absorveu parte da população que migrou do interior do Estado para a Região Metropolitana de Curitiba com a diminuição de postos de trabalho no campo a partir dos anos 1970.

Enquanto empresas saíam, a população — que saltou da casa dos 20 mil habitantes no início dos anos 1970 para mais de 100 mil ainda nos anos 1990 — continuou lá e precisou se virar.

“Nós passamos a ter, em alguns momentos, desemprego naquela área habitacional anteriormente vinculada à indústria. Foi necessário rever o zoneamento justamente para permitir comércio, serviços e outras coisas — o que também provocou uma onda de empreendedorismo”, conta Paranhos.

O economista explica que, desde o último censo do IBGE, em 2010 — que contabilizou 172.822 pessoas vivendo no bairro —, muita coisa mudou. Sabe-se que o emprego ligado à indústria diminuiu e a atividade de micro e pequenas empresas aumentou, assim como a informalidade. O plano inicial da CIC foi se adaptando a essas transformações, com a reconversão de áreas industriais para habitação, comércio e serviços. A estimativa do Ippuc para a população do bairro em 2018 é de 188.247.

“Só os dados do Censo de 2020 permitirão um olhar mais qualificado sobre que tipo de empregos ainda existem, que tipo de impacto a CIC tem sobre a economia da cidade e quantas pessoas ali ainda têm vínculo com essa economia”, diz Paranhos. “O grande desafio é proceder uma reconversão ordenada das áreas industriais quando se souber quanto delas ainda são necessárias. Ninguém tem bola de cristal para saber como será o desenvolvimento do Paraná nos próximos anos.”

Habitação e violência

A CIC foi planejada a partir de uma concepção distinta dos distritos industriais que eram tendência no Brasil, segundo Alberto Paranhos, coordenador da revisão do zoneamento de Curitiba no Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba). A ideia era que a área fosse, de fato, uma “cidade” com base econômica industrial, e não uma zona periférica desabitada.

Desde o início, a Cohab (Companhia de Habitação Popular) comprou terrenos que seriam destinados à habitação e áreas foram reservadas para comércio, serviços e equipamentos comunitários de educação, saúde e lazer.

Situação ainda é precária na Dona Cida e na Vinte e Nove de Março
Situação ainda é precária na Dona Cida e na Vinte e Nove de Março | Foto: Rafael Costa

Problemas habitacionais, contudo, acompanharam o rápido crescimento do bairro e se tornaram um de seus principais desafios até hoje. “À medida que as indústrias foram chegando, o preço do terreno foi aumentando e ficou cada vez mais difícil para a Cohab criar programas habitacionais com base nos critérios federais, e muitos programas começaram a ficar à margem da CIC”, conta Paranhos.

Hoje, a paisagem do bairro é caracterizada tanto por áreas em que predominam estas moradias populares quanto por vilas originadas de ocupações antigas, já regularizadas ou em processo de regularização. Nas ocupações irregulares mais recentes, como a Dona Cida — vizinha da Vinte e Nove de Março, que ficou conhecida de forma trágica após o incêndio de grandes proporções que a destruiu em dezembro do ano passado —, moradores sofrem com a falta de serviços básicos e a incerteza em meio a negociações complexas de regularização fundiária.

“A gente está lutando para poder viver aqui”, conta Sérgio dos Santos Tavera, morador e dono de um mercadinho na área. Segundo o comerciante, a expectativa é conseguir negociar com a prefeitura e o proprietário do terreno preço e condições de pagamento viáveis para os moradores. “Queremos tentar negociar a área. A gente fica inseguro nessa situação”, diz. “Assim, não será preciso retirar ninguém.”

Segundo o administrador da Regional CIC, Raphael Keiji, a regularização é um processo complexo e, em geral, demorado. “Há moradores que vivem há mais de 30 anos em áreas que já são consolidadas, e que estão procurando seu título de propriedade”, explica.

Já para moradores em áreas já estabelecidas, as principais queixas se referem à segurança. Segundo o relatório estatístico de 2018 sobre mortes violentas da Sesp-PR (Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná), a CIC concentrou o maior número de homicídios e latrocínios no ano passado — um total de 57.

Segundo o líder comunitário Haroldo Marconi, da Vila Nossa Senhora da Luz, o problema preocupa os moradores e tem entre suas causas o policiamento insuficiente e a forte presença do tráfico de drogas. O estigma de lugar perigoso, contudo, não faz justiça ao bairro e incomoda, diz.

“Antigamente, as pessoas tinham vergonha de dizer que eram da Vila Nossa Senhora da Luz”, conta Marconi, lembrando que os problemas estão presentes no local desde sua criação, em 1966. A Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, hoje com cerca de 20 mil pessoas, foi o primeiro conjunto habitacional de Curitiba, antecedendo o projeto da CIC.

Marconi, de 51 anos, cresceu na vila e hoje, além de receber demandas da comunidade na Regional da prefeitura, é repórter comunitário. Ele guiou a FOLHA pelas ruas estreitas do antigo conjunto habitacional com uma câmera no pescoço, fotografando seus personagens e fazendo registros de males que se esforça para sanar, como o acúmulo de lixo — problema presente na maioria das localidades da CIC em que a reportagem esteve, em uma visita guiada por Raphael Keiji, da Regional CIC.

“Mas procuro sempre notícias positivas”, diz Marconi. “Amo esse bairro. As notícias ruins, já tem quem faça”, diz.

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