Made in China - Indústria tenta reagir à fúria do 'dragão'
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sábado, 26 de julho de 2014
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Carros, computadores, telefones celulares, televisores, roupas, lâmpadas, brinquedos, louças, eletrodomésticos. Difícil citar algo que usamos no dia a dia que não tenha, atualmente, alguma influência da indústria chinesa. Além dos produtos feitos inteiramente na Ásia e que tornaram-se concorrentes diretos da indústria nacional, milhares de componentes são produzidos por trabalhadores ou robôs chineses e passam diariamente por nossas alfândegas para abastecer as linhas de produção nacionais. Trata-se de uma invasão sem precedentes na economia brasileira, refletida nos números da balança comercial.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, em 2004 o Brasil comprou da China US$ 3,3 bilhões em produtos industrializados (este setor é responsável atualmente por 97,5% das importações de origem chinesa). Em 2013 esta soma chegou a US$ 36,4 bilhões, em um aumento de 997,5% em menos de uma década. Já na soma que considera também os produtos não industrializados, este índice sofreu um aumento de 905%.
No caso do Paraná, os números são ainda mais impressionantes. Em 2004 o Estado importou US$ 170,7 milhões em produtos chineses (industrializados e não industrializados). No ano passado foram US$ 3,2 bilhões, o que significa um aumento de 1.776% nas importações. Um dos setores que mais sofrem com a fúria asiática é o do vestuário. A China é o país de origem de 62,9% das importações de roupas. Entre os anos de 2008 e 2012, segundo dados do Estudo de Competitividade do Setor do Vestuário do Paraná, encomendado pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) ao Instituto de Estudos de Marketing Industrial (Iemi), as importações saltaram de US$ 694 milhões para quase US$ de 2,2 bilhões.
Para quem não consegue aliar-se ao "inimigo", como as grandes empresas que montam unidades de produção na própria China, este movimento tem sido fatal. De acordo com dados da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), do final dos anos 1990 para cá, quando o Brasil se abriu às importações, entre 10 mil e 15 mil indústrias de confecções fecharam as portas.
"O problema não é a China, mas a nossa produtividade interna, que é ruim, e a perda de competitividade que vem acontecendo ao longo dos anos", atesta o empresário Romell Barion, vice-presidente e coordenador do Conselho Temático de Comércio Exterior da Fiep. Ele reconhece, porém, que a China é agressiva e muito melhor preparada para negociar com outros países. "Eles são muito ágeis, têm boa logística, custos de produção menores e estão tomando conta do mercado mundial, não apenas do mercado brasileiro."
Barion defende que a medida mais urgente para as empresas nacionais é recuperar a competitividade, um caminho que passa pela busca de conhecimento e pela atualização tecnológica. "Externacionalizar não é apenas vender para fora, mas se preparar para enfrentar quem vem de fora." O empresário também não poupa o governo daquele que deve ser o seu papel. Melhorar a logística, desonerar a folha de pagamento e diminuir a tributação são algumas medidas necessárias, segundo ele. "Temos procurado alertar o governo. O Brasil precisa avançar nos acordos de livre comércio com países que compõem os BRICs, acima de tudo Índia e África do Sul." O vice-presidente da Fiep lembra que o Brasil é um mercado cobiçado e os produtos que saem daqui são bem recebidos lá fora.
Na mesma linha de raciocínio, o presidente da Estrela, a mais tradicional fábrica de brinquedos do País, Carlos Tilkian, afirmou recentemente que o principal inimigo das empresas brasileiras é a política tributária. Segundo ele, a cascata de impostos que vai desde o fornecedor de insumos até o processo de venda, tira a força e a capacidade de competir. No preço final de um brinquedo, 56% é imposto. Para sobreviver, a Estrela foi uma das que passaram a produzir na China os produtos que eram menos competitivos no Brasil.
Outra gigante que se aliou aos chineses foi a Adama Agricultural Solutions, nova marca global do grupo Makhteshim Agan Industries, que atualmente faz a transição da marca de defensivos agrícolas Milênia, com unidade fabril em Londrina. Em 2011, a Makhteshim Agan uniu caminhos com a ChemChina, empresa controlada pelo governo chinês, que opera na indústria química e agroquímica. Hoje, a Adama é controlada na proporção de 60% ChemChina e 40% Holding IDB.
Por meio da assessoria de imprensa, a Adama informou que 60% da matéria-prima utilizada em suas fábricas vem de outros países, entre eles a China, fornecedora do grupo há mais de 10 anos.


