Da reivindicação ao direito de ser reconhecida como cidadã à conquista do direito ao voto e, na segunda metade do século 20, de bandeiras como respeito ao corpo feminino, autonomia no exercício da sexualidade e combate à violência, o movimento feminista acumula vitórias que repercutem positivamente na organização da sociedade contemporânea. Associados a ações como a queima de sutiãs em praças públicas e outras iniciativas radicais que ajudaram a legitimar as lutas do feminismo, os militantes da igualdade de gêneros assumem, hoje, um perfil diverso. Independentemente das bandeiras levantadas, porém, um fato é inquestionável: as lutas feministas trouxeram impactos sentidos diariamente na vida das mulheres atuais.
‘’Um dos principais avanços é a consolidação de políticas públicas que envolvem questão de gênero’’, avalia a doutora em sociologia Silvana Mariano, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Um exemplo disso é a atenção dispensada em relação à violência contra a mulher. ‘’É claro que ainda falta muito para conter o problema, mas o tema já se converteu em questão pública. Hoje as vítimas encontram amparo para serem acolhidas’’, afirma.
Na educação, as bandeiras feministas têm como consequência a grande presença de mulheres nas salas de aula, inclusive nos cursos superiores. Segundo a socióloga, elas têm mais anos de estudos que os homens, conforme índices da População Economicamente Ativa (PEA). ‘’O acesso à educação é maior, apesar de ainda estarem em áreas menos valorizadas, como nos cursos de humanas’’, opina.
Outro reflexo dos avanços do feminismo está na conquista de autonomia, inclusive sexual, por parte das mulheres. Hoje, elas podem escolher os parceiros sexuais e têm liberdade para dissolver vínculos de relacionamento e construir outros.
O controle sobre a natalidade é outro fator de garantia para essa autonomia feminina. ‘’A maternidade, para muitas mulheres, é um projeto de vida, e não mais um destino biológico’’, considera.
Mas ainda há muito para avançar. Na política, por exemplo, a participação feminina é muito pequena, apesar da lei que tornou obrigatória a presença de 30% de mulheres entre candidatos das legendas. ‘’A ação política é masculinizada, pois os partidos são aparelhados por homens, apesar das comunidades de base serem femininas’’, compara, acrescentado que ‘’o ‘clube do bolinha’ está arraigado nos espaços de poder’’’.
Silvana cita, também, que o machismo no tratamento dado ao corpo feminino ainda é um problema. Se por um lado este corpo é erotizado e mercantilizado para vender produtos, por outro, a condenação moral de atividades como a prostituição, por exemplo, retira das mulheres a possibilidade de fazer o que quiserem com o próprio corpo. ‘’Outro exemplo é o aborto, cuja legislação é a mesma desde 1940’’, critica.
As feministas também reivindicam a atenção integral à saúde da mulher, que atualmente, segundo a socióloga, só recebe assistência adequada nos serviços públicos durante a gravidez e o pós-parto. A falta de acesso universal às creches, para Silvana, é outra meta que precisa ser conquistada, visto que a falta de locais para deixar os filhos ainda impede a entrada de muitas mulheres no mercado de trabalho formal.

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