Londrina por elas
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Vitor Ogawa e Isabela Fleischmann <br> Reportagem Local 
Londrina comemora nesta segunda-feira (10) 84 anos de fundação. Em 1932, João Sampaio, presidente da Companhia de Terras Norte do Paraná, propôs o nome "Londrina" como homenagem às mulheres de Londres. A partir desse ponto, a FOLHA traçou a transformação da cidade pelos olhos de quatro mulheres londrinenses, cada uma representando duas décadas de história.
A primeira personagem, Teresa Reschke, 74, retrata os primeiros anos de fundação da cidade. Tempos difíceis lembrados com carinho pela aposentada, que mora em uma das casas de madeira remanescentes na vila Recreio (região central). O progresso acelerado entre anos 1954 a 1974 é contado pela auxiliar de enfermagem aposentada Oulevantina Benatto Cruz, 79. A terra vermelha ganha muitos tons de cinza.
Em 1975, a grande geada dizima os cafezais e acelera o processo do êxodo rural. Surgem os conjuntos habitacionais que dão origem à grande parte da zona norte. A técnica em enfermagem Ana Paula de Oliveira Santana conta os passos que transformaram a região em uma "cidade dentro de Londrina". Por fim, dos anos 1990 até hoje, a cidade consolida o processo de verticalização em núcleos fora do centro, com destaque para a Gleba Palhano (zona sul), endereço de Ana Luiza Camacho, 24. A psicóloga lembra que morava em um dos únicos prédios do bairro, antes do paredão de espigões tomar conta da paisagem.
Para acompanhar essa transição urbanística, a reportagem conversou com o professor de arquitetura da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e doutor em planejamento urbano regional, Gilson Jacob Bergoc.
(1934-1953)
A cidade como era no princípio

Depois que a caravana da Companhia de Terras Norte do Paraná chegou à região do Marco Zero, na zona leste de Londrina, começaram a vir as primeiras pessoas interessadas em adquirir propriedades neste Eldorado do sertão norte-paranaense. Uma das famílias foi a de Teresa Reschke, hoje com 74 anos.
"Minha mãe veio da Iugoslávia e meu pai da Áustria. Chegaram em Londrina há 84 anos e só tinha um hotel, que era um rancho de palmito, e a colonizadora Companhia de Terras do Norte do Paraná", relata.
"Meus pais contaram que aqui era tudo mato. A derrubada das árvores foi muito difícil e trabalhosa, mas eles diziam que valeu a pena. As estradas de chão tinham muito barro, a água era de poço e o fogão à lenha. A casa era iluminada por um lampião de gás ou por lamparinas", diz, lembrando as histórias contadas pelos pais. "Minha mãe morava perto de onde fica hoje o conjunto Vivi Xavier (zona norte). O meu pai tinha o sítio dele onde hoje fica o cemitério Jardim da Saudade. Foi lá que meus pais se casaram e foi lá onde eu nasci em 1944", relata, informando que seus pais ajudaram a construir a primeira igreja católica de Londrina e também o primeiro cemitério da cidade, ambos no Patrimônio Heimtal (zona norte).
Reschke relembra que nos tempos de criança brincava de casinha ou de boneca, ia na escola e trabalhava na roça. "Estudei na escola José de Anchieta, no Heimtal. Passei a trabalhar na lavoura a partir dos oito anos de idade. Acordava às 6 horas da manhã, caminhava 1,5 km para ir à escola, voltava, almoçava e ia para a roça, onde limpava os troncos do pé de café", explica.
Nas primeiras décadas de Londrina, ela lembra que a água era de poço, com bomba à manivela. Não tinha sabão em pó e era necessário fabricar o sabão caseiro, com banha. Era bem sacrificado", destaca. "Energia elétrica a gente viu no sítio a partir de 1968. A primeira vez que vi água encanada na minha casa foi em 1978, quando me mudei para a Vila Recreio", conta. Ela mora até hoje no bairro, em uma das muitas casas de madeiras que resistem ao tempo.
Reschke revela que naquela época as pessoas raramente iam ao médico. "Curávamos com remédios caseiros feitos com raízes e folhas. Parecia que a gente tinha mais saúde. Isso porque você plantava o que você comia. Não tinha veneno, não tinha agrotóxico", acredita.
Mas nem tudo era trabalho. Havia espaço para as festas. "Os casamentos eram realizados nas tulhas e no terreiro. Colocavam uma lona, matavam um bezerro e faziam churrasco. Tinha gente que tocava música sertaneja com sanfona e a festa seguia até todo mundo cansar. Carnaval também tinha, mas naquela época, quando chegava terça-feira, à meia-noite a festa acabava. A quaresma era respeitada", destaca, dizendo sentir saudades do tempo de criança. "Era um sossego, uma tranquilidade. Você podia sair à noite e não tinha perigo nenhum. Trabalhávamos a semana toda. No fim de semana meu pai colocava cavalo na carroça e a gente ia nas casas dos outros. Os pais conversavam, as crianças brincavam e era aquela união. Hoje não tem mais conversa, não tem mais diálogo. As pessoas usam celular o dia inteiro", critica.
Mesmo com as mudanças, ela declara seu amor pela cidade. "Olha o que é Londrina hoje. Era para ser a pequena Londres e virou Londrina. Não tenho vontade de sair de Londrina ou ir a outro país. Sou apaixonada pela cidade", declara.
(1954-1973)
O cimento cobre a terra vermelha

O ano de 1954 foi marcante para o surgimento de alguns marcos na cidade. Naquele ano o terminal de passageiros do aeroporto de Londrina estava em obras e seria inaugurado dois anos depois. 1954 também marca a inauguração do prédio que viria a abrigar o Mercado Shangri-lá. Poucos anos antes o Edifício Autolon tinha sido inaugurado, em 1951. O Cine Ouro Verde abriu suas portas em 1952. No meio dos dois estava a Confeitaria Caloni, inaugurada em 1954.
Uma de suas frequentadoras era Oulevantina Benatto Cruz, que na época tinha 15 anos. "Eu ia sempre no footing acompanhada pelo meu pai. Era divertido". Cruz também frequentava bailes no clube Redondo, que ficava onde hoje é a Acesf (Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina). "Depois que comecei a namorar meu marido, ele nunca mais me deixou ir nos bailes", relembra.
Cruz é filha do caminhoneiro João Antônio Benatto, que dirigiu o caminhão Ford que viria a ser transformado na Catita da Viação Garcia, na década de 1930. Na época seu pai alugava uma casa de madeira, onde hoje fica o Centro Comercial e transportava areia e tijolos para as construções da região. Dessa forma seu pai foi aos poucos contribuindo para a transformação da cidade de ambiente rural em uma selva de concreto.
Assim ela foi acompanhando a transformação da cidade. "Testemunhei a construção dos principais marcos da cidade. Lá na biblioteca era a quadra de tênis que a CTNP construiu. Os funcionários russos, alemães, ingleses praticavam tênis. Em 1947 a quadra foi desativada e foi construído o Fórum. Depois, nesse mesmo local, foi construída a Biblioteca Pública. Antes a biblioteca funcionava na Casa da Criança (atual Secretaria Municipal de Cultura). Nessa época eu era funcionária da biblioteca".
Perto dali, em 1957, ela também viu a construção da Concha Acústica. Atualmente Cruz reside com seu irmão Omeletino Benatto em uma casa térrea na rua Souza Naves, que pertencia a seus pais. Cruz conta que quando tinha 15 anos, seu pai fazia festas nesse mesmo endereço, entre as quais as festas juninas. "Eu lembro da rua, das festas que meu pai fazia na época de São João, na rua Souza Naves (que na época se chamava rua Minas Gerais). Eram festas muito boas. Hoje a gente não vê isso na cidade", declarou.
Na época a rua era de terra, depois se tornou de paralelepípedo. Só muito tempo depois é que foi asfaltada. Da década de 60, o que ela lembra mais são dos desfiles de carnaval realizados na avenida Paraná, onde hoje fica o Calçadão. Cruz casou com 21 anos ficou viúva seis anos depois. "Fui estudar e me formei pedagoga senão não teria emprego".
Posteriormente, no fim da década de 1970, se formou como auxiliar de enfermagem, e atuou no Centro de Saúde (Centro), local do qual se aposentou há dez anos. Uma das lembranças mais importantes de Cruz é de quando Getúlio Vargas a pegou no colo, durante um discurso do político em, 1945. O palco desse discurso foi a sacada da antiga prefeitura, onde hoje fica a agência Mister Thomas, do Bradesco (rua Minas Gerais). O prédio antigo foi demolido porque o Paço Municipal foi mudado para a região do lago Igapó. A cidade ainda jovem se transformava rapidamente.
(1974-1993)
Com a geada, a cidade cresce para o norte

Ana Paula de Oliveira Santana, 32, nasceu, cresceu e sempre viveu no Vivi Xavier, zona norte de Londrina, onde reside com sua mãe. "É uma área muito grande, além de ser grande em número de bairros, a população cresceu muito. Tem uma hiperpopulação aqui", concluiu.
A mãe de Santana mora no Vivi Xavier há 40 anos. "Primeiro se formaram os Cinco Conjuntos, e se estenderam os outros bairros, o Vivi Xavier fica mais para frente. Minha mãe veio bem no começo, ela disse que ainda tinha muito café", lembrou.
Santana estudou no Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, próximo à avenida Saul Elkind, principal via da zona norte. "Também estudei no colégio municipal localizado no meu bairro, tudo aqui. Só sai do bairro para fazer faculdade".
Ela formou-se técnica em enfermagem pela faculdade Pitágoras. "Eu tinha que atravessar a cidade, pouco mais de uma hora para chegar até lá", contou. No início do curso, Santana precisava pegar dois ônibus. Do terceiro ano em diante, "já existiam linhas que saíam direto da zona norte", lembrou. Hoje já existem linhas exclusivas para as faculdades. "O acesso é rápido, mas a distância é grande", comentou.
Em questões de transporte, ela acredita que o acesso para quem mora na zona norte é facilitado. "Chega a ser mais fácil que em outras áreas". Mas, para outros serviços, como o recolhimento de árvores caídas após fortes chuvas, "acaba demorando um pouco mais para chegar aqui". Todavia, Santana considerou que "alguns serviços demoram até mesmo pela quantidade de pessoas que moram nessa área".
Toda a família de Santana, londrinense, mora e trabalha na zona norte. "A zona norte é uma cidade separada de Londrina", definiu. Isso porque, segundo a técnica em enfermagem, é possível resolver tudo de lá. "Você consegue fazer tudo daqui sem precisar usar a área central. Banco, hospital, posto de saúde. Às vezes você fica dias sem ir até a o centro porque consegue articular tudo daqui, próximo da residência", explicou.
Ela mesmo vai trabalhar a pé. "São vinte minutos de caminhada", contou. A técnica em enfermagem atua no Hospital Zona Norte. "A gente atende uma demanda muito grande, o hospital está pequeno para comportar o número de pessoas da região", disse. Na zona norte, não há UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Isso eleva a demanda do hospital, de acordo com a técnica. "Vem todo mundo para cá. É bem corrido, serviço intenso, muita gente. Até porque tem bairros novos que inauguraram há pouco tempo, como o Vista Bela, com mais de sete mil moradias, que atendemos aqui também. Fora as invasões, os loteamentos que foram crescendo. É uma área que está cada vez mais habitada".
Com toda essa gente, Santana é uma das pessoas que pensa em permanecer por lá. "Não pretendo morar longe, não. Vou sair da casa da minha mãe mas vou continuar aqui na região mesmo. Eu cresci aqui".
(1994-2018)
Sem parar de crescer, o destino agora é o céu

Ana Luiza Camacho, 24, nasceu em Londrina, e morou boa parte de sua vida na Gleba Palhano, na zona sul, onde hoje reside. Na infância até os cinco anos morou na região central da cidade e depois se mudou para a zona sul. "Fui morar na Gleba, mas em um prédio diferente do que moro hoje. Quando eu morava lá não tinha nada desses prédios, eram só chácaras".
O prédio onde Camacho residiu até os 17 anos era um dos únicos da Gleba. "Do lado era uma rua sem saída, e tinha até umas vacas, frutas", lembrou. A jovem conta que era bom morar na Gleba naquela época, "porque não tinha tanto carro, era tranquilo". Ela retornou para o centro da cidade, na rua Paranaguá, mas voltou a morar na Gleba Palhano quando começou a cursar psicologia na UEL (Universidade Estadual de Londrina).
"Não pretendo sair de Londrina", disse. Hoje, Camacho mora com sua família, seu pai e dois irmãos, no 10° andar de um dos tantos prédios da Palhano. Os avós de Camacho são do interior do Paraná, e seus pais, ambos londrinenses, vieram do centro e da zona oeste.
"Quando eu era criança gostava bastante de morar aqui na Gleba. Muito por causa do prédio, que era gostoso, tinha área de lazer, piscina e a rua era tranquila, dava para andar de bicicleta", recordou. A Gleba Palhano atual é movimentada, com inúmeros carros, principalmente em horários de pico. "Hoje tá bem diferente de quando mudei para cá da primeira vez. Cresceu de uma forma muito desordenada, parece que foi sem planejamento", concordou.
A psicóloga também acha que falta arborização pelas largas ruas da Gleba Palhano. "Antes tínhamos uma visão privilegiada, era um dos únicos edifícios. Agora é só prédio".


