LIXO - Sem qualidade, matéria-prima vira transtorno nos barracões
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sábado, 23 de abril de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Em um dos galpões da cooperativa Cooperoeste, em Londrina, trabalhadores passam o dia separando, prensando e embalando o produto da coleta seletiva realizada em parte dos bairros da cidade. A população que deposita embalagens no "saco verde" não sabe que muitas matérias-primas não têm sido comercializadas. O problema, porém, não está na coleta e nem na separação. Sérgio Patrício Pontes, um dos coordenadores da Cooperoeste, denuncia que muitos fabricantes de embalagens têm utilizado materiais de pior qualidade no processo industrial, que acabam sendo rejeitados pelo mercado. "A gente coleta, separa e acaba doando para recicladores que têm mais estrutura para comercializar", conta ele, para quem o conceito de logística reversa não está sendo contemplado no processo. "A indústria fabrica um material de pior qualidade, mas depois não pega de volta."
Um novo tipo de plástico tipo pet, utilizado para engarrafar iogurtes e bebidas lácteas, é um dos materiais acumulados em montanhas de materiais que ocupam espaço nos barracões. Ao contrário das garrafas plásticas usadas para embalar refrigerantes, esses pets não têm aceitação no mercado, o que acaba se transformando em "transtorno" para as cooperativas mais distantes dos grandes centros industriais do País. "Algumas regiões até têm mercado para esses materiais, mas não temos logística para vender para longe, por isso acabamos doando. As indústrias não estão nem aí com o que vai na reciclagem", lamenta.
Outro tipo de produto que chega em abundância e acaba acumulado nos barracões são os sacos de salgadinhos industrializados. Conforme Pontes, também não há mercado para eles, que são doados a compradores que vendem em grande escala o material coletado e separado pelos trabalhadores da reciclagem. O isopor também enfrenta problema parecido. Já existe tecnologia para transformar o material, mas falta logística para o transporte.
Apesar da dificuldade, ele orienta que a população deve continuar enviando essas embalagens para a reciclagem, pois as cooperativas dão a destinação correta. O coordenador destaca, também, que as famílias não devem mandar seringas de injeção nos sacos, pois há risco para os trabalhadores. "Quem manda as embalagens já limpas também colabora", reforça.
Diante das dificuldades relatadas pelos trabalhadores da reciclagem, pessoas como a arquiteta e gestora ambiental Léa Gejer, de São Paulo, defendem a aplicação do conceito de economia circular para garantir o máximo aproveitamento dos materiais quando não têm mais o uso para o qual foram inicialmente projetados. Ela, que tem uma empresa de design especializada no chamado design "berço a berço", considera que os resíduos gerados pela não reciclagem dos produtos é uma falha na concepção dos mesmos.
"Vivemos em uma economia linear, ou seja, extraímos, produzimos e descartamos. A economia circular propõe que os recursos que extraímos e produzimos continuem em circulação, mas isso só é possível com um design excepcional que elimine o conceito de lixo. A ineficiência da reciclagem ocorre quando não pensamos no processo de reaproveitar a matéria-prima antes", argumenta.
Ela exemplifica que as garrafas pet usadas para embalar refrigerantes estão inseridas em um processo cíclico, pois são reaproveitadas para fazer novas embalagens com a mesma qualidade. "O problema é quando misturam o plástico com algodão, por exemplo. Depois do uso, não dá mais para dissociar os dois materiais para reciclar e aí a garrafa que tinha uma qualidade ótima acaba triturada. O algodão, por sua vez, não pode mais voltar para o ciclo biológico e se transformar em adubo."
A arquiteta defende o sistema atual de reciclagem do Brasil, baseado em cooperativas, pois oferece a oportunidade de envolver mais trabalhadores nesta cadeia. "O problema maior é mesmo a desvalorização dos materiais, é preciso investir no início do processo para que ele seja realmente cíclico."


