LIXO - Gargalos emperram reciclagem no País
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
O último diagnóstico sobre coleta de resíduos sólidos no Brasil, divulgado neste ano pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento a partir de dados coletados em 2014 (SNIS-2014), constatou que o Brasil ainda não realiza coleta seletiva de forma eficiente, o que condena muitos materiais com potencial de serem transformados em novos produtos a ficarem acumulados nos entrepostos de reciclagem ou, pior, acabarem em lixões ou aterros sanitários.
Londrina, como metade das cidades paranaenses, está no privilegiado grupo de 23,7% dos municípios brasileiros que contam com um serviço oficial de coleta seletiva. No País, em 2014, um milhão de toneladas de recicláveis secos (papel, plástico, vidro e metais) foram recuperadas nestes locais, representando 1,6% do total de 64,4 milhões de toneladas de resíduos domiciliares e públicos coletados no País. O volume de "materiais recicláveis secos" presente no total de resíduos sólidos coletados excluindo matéria orgânica corresponde a 30%. Neste universo, significa que aproximadamente 5,2% da massa total potencialmente recuperável de recicláveis secos recebe esta destinação.
Os dados são referentes apenas aos municípios que mandaram informações para a pesquisa. Entre eles, 43,9% afirmaram não possuir coleta seletiva e outros 32,4% não informaram a situação da coleta. O estudo reconhece que, entre os municípios não informados, é possível que muitos não ofereçam o serviço, o que significa que ainda há uma grande parcela de resíduos sendo depositados em aterros ou lixões.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece que a responsabilidade pelos resíduos deve ser compartilhada entre poder público, população e empresas que fabricam e comercializam embalagens e outros produtos descartados após o consumo. Por isso, indústrias, supermercados, distribuidores, importadores e comércio em geral estão obrigados a instituir sistemas para coleta e recuperação de materiais após o consumo, dando continuidade ao seu ciclo de vida como insumo à fabricação de novos produtos. Conforme a lei, a responsabilidade pelos materiais descartados após o consumo recai também sobre os consumidores e o poder público municipal, os titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.
No Paraná, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) segue o plano nacional para estipular as políticas públicas que regem a coleta de resíduos sólidos. Vinício Bruni, coordenador de resíduos sólidos da Sema, explicou que a regra é baseada no conceito de logística reversa, ou seja, a responsabilidade pela destinação final é de toda a cadeia, do fabricante ao consumidor.
Ele estima que 50% das cidades paranaenses contam com serviços de coleta seletiva, com cobertura de 75% da população do Estado. As dificuldades, segundo ele, estão além da simples realização da coleta, mas esbarram em logística, armazenagem, transporte e até mesmo o interesse do mercado pelas matérias-primas. "Isso tudo envolve custos e depende de todos os setores envolvidos."
Um dos gargalos é descobrir qual a eficiência da coleta seletiva que se pratica nos municípios. "Não existe um problema único. Às vezes a coleta funciona, mas a operação da cooperativa não é eficiente, ou vice-versa. Aí tem o problema do transporte, do mercado que vai comprar o material. O Estado orienta, mas a operação depende de muitas coisas, inclusive da adesão das cadeias produtivas", opina.
Bruni lembra que, quando a cadeia produtiva se envolve, as soluções aparecem. E cita o exemplo de serrarias dos municípios da região de Ortigueira, que há 25 anos tinham que pagar para uma empresa destinar corretamente a serragem, mas hoje utilizam uma tecnologia que compacta o produto e transforma em lenha, que acaba sendo vendida pelos empresários. "É preciso deixar o mercado se adaptar", defende.


