LIMITES E DIREITOS - Protestos têm direção incerta e expressões violentas são enigmas
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domingo, 26 de janeiro de 2014
Marian Trigueiros e Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Movimentos que discutem a ausência do cumprimento da Constituição Federal, instrumento que deveria assegurar os direitos do cidadão, ganharam mais notoriedade ao levantar problemas como a precariedade dos serviços públicos como saúde e educação e o direito à ocupação da cidade e mobilidade.
Segundo Rosana Schwartz, socióloga e professora da Universidade Mackenzie (SP), esses movimentos não são novos, mas a forma que se articulam, sim. "A comunicação entre eles é inevitável, sejam de diferentes interesses. As mídias sociais favorecem essa comunicação em um formato de decisão no modelo horizontal, em detrimento à estrutura vertical centralizadora", resume.
Apesar disso, não seria prudente, para ela, dizer onde esses grupos vão ou querem chegar. "São vários personagens atuando numa mesma história. Isso possibilita inúmeras práticas e estratégias por uma causa única ou várias causas. Ou seja, o grupo inicial perde o controle dos que vão somando-se. Todos eles, no entanto, estão insatisfeitos com as práticas do governo que estão sendo realizadas, o qual exibe uma baixa participação popular", comenta a socióloga, dando exemplo dos denominados black blocks, que consideram legítima a quebra de patrimônios, principalmente aqueles que são o símbolo do capitalismo e do poder. "Mas, em geral, a maioria dos movimentos acaba respondendo com violência, de uma maneira ou de outra."
A cientista política Carla Almeida, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Participação Política (Nuppol)da Universidade Estadual de Maringá (UEM)afirma que o neo-radicalismo ainda é um enigma. "A violência como expressão política, tal como colocada nos discursos contemporâneos, é algo novo, que ainda precisa ser melhor estudado", avalia. "Alguns grupos enxergam ataques a símbolos do poder político e econômico durante as manifestações como algo legítimo e isso até pode fazer algum sentido no universo democrático. No entanto, a depredação de bens de uso da população, como é o caso de incendiar ou apedrejar ônibus, não faz nenhum sentido", opinou.
"Os limites da legitimidade das manifestações de rua não são estáticos. No século 19, por exemplo, greve era proibida", compara Carla. "Por isso, este tema deve ser objeto de um debate público com a participação de todos os setores da sociedade, dos organizados, dos desorganizados e no campo institucional, com o envolvimento dos poderes legislativos, das câmaras e das assembleias. Há elementos para se dizer que vivemos um momento histórico, onde estes limites poderão ser redefinidos."
A pesquisadora diz que "é preciso lembrar que quem tem mais força para conferir os limites são os poderosos, justamente os alvos dos protestos. É nesse contexto que devemos observar as atitudes de desobediência."
Conforme Rosana, grande parte dos manifestantes são oriundos da classe média e a dicotomia apresentada no grupo (apoio à violência versus crítica à violência) se dá pelo medo de arriscar. "Eles são conservadores. Ao contrário dos que possuem uma raiz anarquista, que defende a quebra literal do que é velho e imposto. Esses, entretanto, não são da periferia ou excluídos; possuem conhecimento político. Mas, todos, sem exceção, querem alimentar o sentimento que chamamos de 'happening', o que significa 'estar fazendo algo', movido por uma crise de representação", comentou.
A professora da UEM propõe tolerância em meio à tensão. "Mesmo que os protestos envolvam pequenos grupos é importante que as autoridades aceitem a interlocução e a negociação. Porque a democracia não é uma ditadura da maioria. Um dos compromissos de um governante democrático é também dar voz aos grupos minoritários".
Tolerância também do conjunto da sociedade, espera Carla, contrária à ideia de regulação dos protestos de rua. "Os movimentos sociais são criados para incomodar, para chamar a atenção. Um conjunto de regras muito rígido para manifestações de rua não me parece muito democrático, já que sem incomodar, a ação perde a relevância."


