É um embate que começou na década de 1950, se intensificou entre os anos 1980 e 2000, adormeceu por alguns anos e que agora volta com força nos rincões do Sudoeste e Oeste do Estado. Na região onde a mata atlântica se apresenta mais viva e complexa no interior, uma vastidão de comovente beleza que se espalha por 185 mil hectares, o assunto ressurge em 2014 como se fosse "déjà vu" insistente, uma história que simboliza como poucas a difícil relação que o homem pode ter com seu próprio meio ambiente.
Os 17 quilômetros de leito rodoviário entre a localidade de Capoeirinha (município de Serranópolis do Iguaçu) e o Porto Lupion (município de Capanema) da BR-163, já aparentemente engolido pela floresta subtropical, pode ser reativado em 2015, através da via política. O tema Estrada do Colono saiu dos tribunais, onde o assunto foi tratado desde 1986 com o primeiro fechamento após determinação da Justiça Federal, e foi parar no Congresso Nacional.
No ano passado, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou uma lei de autoria do deputado Assis do Couto (PT) e – sem passar pelo plenário – seguiu para o Senado, onde aguarda tramitação. O projeto do parlamentar petista, que se classifica como representante da agricultura familiar, defende a instalação de uma estrada-parque no mesmo traçado da polêmica via, fechada por contrariar o Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu. A área por onde passaria a nova rodovia é considerada "intangível", ou seja, deve permanecer eternamente intocada.
Couto garante que o funcionamento da via turística é "totalmente diferente da anterior". "Primeiro que não será pavimentada, segundo que não será permitido o transporte de cargas, terceiro que não funcionará durante a noite. Será construída dentro dos padrões internacionais de sustentabilidade", garantiu o parlamentar à FOLHA.

Ao mesmo tempo que o fato da matéria avançar em Brasília renova as escassas esperanças dos moradores de cidades como Capanema e Serranópolis do Iguaçu, cuja população é francamente a favor da reabertura, a proposta recheada de condicionantes não convenceu a autoridade ambiental federal a comprar a ideia. Em nota, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade informou que o órgão é "terminantemente contra o projeto (…), por entender que não há justificativas mínimas que a sustentem, seja sob o aspecto ecológico, seja sob o ponto de vista socioeconômico. A reabertura da estrada comprometeria a integridades dos recursos desta área protegida de importância global por causa de sua diversidade biológica".

O deputado ignora a oposição do governo do próprio partido ao projeto. No ano passado, por exemplo, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, fez duras críticas à proposta em visita a Foz do Iguaçu, lembrando do risco da unidade de conservação federal – a segunda mais visitada do País (a primeira é o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro) – perder o título de sítio do Patrimônio Mundial da Natureza, distinção concedida pelas Nações Unidas através da sua divisão para a educação, a ciência e a cultura. A Unesco encara a abertura da estrada como uma ameaça ao equilíbrio ambiental do parque.

Mesmo diante de tão pesados rivais, o deputado não desiste. "É uma história que mais cedo ou mais tarde tem que ter uma solução, boa para a população da região, boa para a população do Estado e boa também para o parque, que tem sofrido muito com o fechamento desta estrada", disse.

Além da falta de apoio do governo federal, Couto enfrenta todo o poderio das ONGs ambientais, que se uniram em torno da questão e já assinaram vários documentos em repúdio ao projeto.

Para o especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, o jornalista Aldem Bourscheit, a abertura da estrada na mata virgem traz uma série de impactos. "O desmatamento em si, o efeito de borda, da entrada de luz e de outros materiais provocados pelos deslocamentos de veículos na mata nativa, o atropelamento de animais, o corte de rios e de pequenos córregos, o depósito de lixo e de outros poluentes", relaciona.

"É importante lembrar que nossa posição é baseada em estudos, que revelam que esta estrada não teria nenhuma relevância econômica. O parque nacional íntegro, como está hoje, rende milhões para a região", dispara Bourscheit. "Somente com o turismo, são R$ 90 milhões por ano, o ICMS ecológico rende mais R$ 10 milhões e os serviços ambientais – a renovação do ar, da água e do solo – valem cerca de R$ 600 milhões", enumera.

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