LIGAÇÃO OESTE-SUDOESTE - Argumentos históricos e impulso do turismo
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domingo, 26 de outubro de 2014
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
O deputado Assis do Couto (PT), autor do projeto 7.123/2010, que aguarda anuência dos senadores para vigorar como lei, afirma que o caminho no meio da mata foi usado por índios, pela Coluna Prestes e por demarcadores de fronteira antes da criação do Parque Nacional do Iguaçu em 1939. O parlamentar também sustenta que o fechamento da estrada acarretou prejuízos afetivos e culturais. Os ambientalistas contestam o argumento dizendo que a estrada à época não passava de uma trilha precária na floresta e que o caráter afetivo e cultural da via é um argumento implantado no imaginário da população para manter a mobilização viva. "A estrada só foi aberta depois que o parque já havia sido criado, ou seja, ilegalmente. E um estudo do Ipardes de 2005 esvazia a tese de vínculos afetivos rompidos com o fechamento", afirma Aldem Bourscheit, do WWF Brasil.
"É uma estrada muito antiga, que tem uma história e uma cultura que influenciaram a região. Esta talvez seja a maior violência cometida contra os vizinhos do parque: afrontar a alma do povo, desrespeitar seu aspecto sócio-cultural", rebate o deputado.
Reeleito para mais um mandato nas eleições do início do mês, Couto sabe que tem amplo apoio em sua base política. A reportagem da FOLHA constatou que em Capanema, por exemplo, o clamor pela reabertura é passado de pai para filho. "95% das pessoas querem a estrada de volta", afirma o agricultor Jackson Reckziegel, de 28 anos, morador da localidade de Santa Clara, que fica às margens da BR-163, poucos quilômetros onde a via é interrompida pelo rio Iguaçu e onde ficava a balsa que fazia a travessia para o trecho de mata fechada. "Me lembro de ter participado de um protesto com o meu pai em 1997. O pessoal na época ficou muito revoltado. Hoje este trecho da estrada quase não passa carro, mas naquele tempo era movimentado", recorda-se.
Ele lembra que muita gente das propriedades daquele bairro rural vendia frutas na margem da rodovia para complementar renda. "Lá no porto tinha restaurante, o pessoal comia um peixe frito, tomava um caldo de cana. Era muito animado", lamenta.
No Porto Lupion, cuja histórica balsa foi retirada por tropas federais em 2003, a nostalgia marca os dias. De lá, se avista o ponto do outro lado do Iguaçu onde a estrada começava ou acabava. Os poucos moradores dali se entristecem ao verificar que a cada dia é mais difícil perceber onde ficava o ponto exato de desembarque da balsa.
"Esta não será a primeira estrada dentro de um parque nacional. Existem várias. Por que a população vizinha não merece confiança? Merece mais que confiança, precisa e merece um pedido de desculpas das autoridades nacionais pelos estragos que o fechamento causou", afirma o deputado . "Precisamos aprovar uma lei que confie nas pessoas e nas instituições."
A WWF Brasil discorda. "O deputado poderia propor benefícios para a população vizinha ao parque. Por exemplo, isenções em transporte, isenções em praças de pedágio. Existe uma série de arranjos mais inteligentes e menos populistas que o parlamentar deveria propor. Estamos abertos para debater estas possibilidades", afirma Bourscheit. "O que não pode acontecer é abrir uma estrada na parcela mais sensível da unidade. É uma agressão inaceitável contra a mata atlântica no Brasil."
O pequeno comerciante Anildo Theisen, de 74 anos, que vive em seu estabelecimento muito próximo às águas do Iguaçu, tem uma opinião diferente do ambientalista. No silêncio do Porto Lupion, ele faz suas reflexões. "Para todo lado tem estrada dentro de parque, porque não podemos ter uma aqui para gerar turismo? As crianças poderão conhecer a mata virgem, passear por ali', diz, apontando o gigante verde que fornece diariamente ao ex-agricultor o voo coletivo de borboletas coloridas, um prosaico e belo espetáculo que ajuda a aliviar o tédio da comunidade semi abandonada. "O fechamento não ajudou a proteger. Ajudou a destruir. Quem está por estes lados, não tem mais chance de um emprego, de uma renda, acaba fazendo coisa errada dentro da mata. Quando a estrada funcionava, a balsa trazia muito movimento. Muita gente vendia frutas aqui e ganhava um dinheirinho. E agora?", reclama.
Até mesmo em outras cidades vizinhas a Capanema, a mobilização pró-estrada ecoa. Em Capitão Leonidas Marques (Oeste), o prefeito Ivar Barea (PDT) reclama da saturação da BR-163, alternativa única em território brasileiro para quem vive no Sudoeste e quer chegar a Foz do Iguaçu. "É um movimento absurdo, que poderia ser evitado com a abertura de um outro corredor ligando o sudoeste à Tríplice Fronteira. No entanto, não há nenhuma atitude dos ambientalistas e do poder judiciário em tomar a mesma atitude em relação à estrada que leva às Cataratas. Quer dizer: lá não há dano, só aqui? É uma incoerência", queixa-se, entre um gole e outro de chimarrão.


