‘‘Ficamos aqui mofando enquanto os processos estão encalhados. Não sabem quem somos porque nossos documentos também sumiram nas mãos dos advogados’’, desabafou Jairo Alves de Oliveira, preso há dez anos na Penitenciária de Ciudad del Este, sem saber qual a decisão final da Justiça.
Oliveira, que completou 29 anos há seis dias, está inconformado com a demora para definir sua condenação. Há uma ano, a Folha entrevistou o brasileiro quando seu processo ainda estava em andamento. O julgamento veio somente no final do ano passado, depois que o novo Código Penal paraguaio entrou em vigor. No entanto, o recurso acabou sendo levado à Corte Suprema em Assunção, que até agora não definiu quanto tempo mais terá que ficar preso. ‘‘Já deveria estar cumprindo o restante da pena em liberdade. Os próprios juízes admitem que não existem provas contra mim no processo’’, disse Jairo, acusado de homicídio doloso.
Jessé Travessin, 29, preso em maio de 1998 acusado de tráfico de maconha, também aguarda o resultado do processo, que ainda não foi julgado pela Justiça paraguaia. ‘‘O mais triste é saber que estamos sozinhos, longe da família’’, comentou Travessin, cujos parentes vivem no Mato Grosso. Ele também denunciou uma suposta ‘‘lei de suborno’’, onde advogados e defensores públicos agilizariam inquéritos mediante pagamento. ‘‘Aqui tudo é na base do dinheiro. Quem tem, cai fora. Quem não tem, apodrece na cela.’’
O agricultor Andre de Souza, 47 anos, disse que a última visita do seu advogado foi em julho do ano passado. Acusado de abusar sexualmente de sua filha, Souza diz ter sido enganado pela mulher, que teria feito uma falsa denúncia à polícia para ficar com a casa. ‘‘Ela vendeu tudo e sumiu. Como minha família vive em Minas Gerais, fiquei sozinho num país que não é meu’’, lamentou Souza.

mockup