Jeitinho brasileiro: herança para ser abolida
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sábado, 29 de junho de 2013
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
O famoso 'jeitinho brasileiro' de solucionar os problemas, que ao longo dos anos virou praticamente uma instituição nacional, pode não estar com os dias contados ainda, mas cada vez mais é visto como motivo de vergonha pelos representantes da nova geração. Entre os que foram para as ruas protestar nos últimos dias, são muitos os que sentem-se incomodados com a constante disposição para tirar vantagem sobre alguém. São jovens que parecem ter percebido a tempo que não adianta cobrar honestidade e ética dos governantes se estes valores não forem cultivados também pelos cidadãos comuns.
A estudante Lidiane Rebouças Santos, de 21 anos, nunca havia participado de uma passeata, mas diante da possibilidade de aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que propunha a retirada de poderes de investigação do Ministério Público, a PEC 37, viu-se motivada a ir para as ruas, no sábado passado. "Acho que a aprovação da emenda faria aumentar a corrupção no País. Temos um governo que é bastante corrupto, e temos esta coisa do jeitinho brasileiro, mas não dá para afirmar que a população é corrupta. Acho que ela estava desacordada. Agora as pessoas acordaram e perceberam a voz que elas têm. Houve uma mobilização (inicial) que foi ganhando esta proporção porque todo mundo começou a levantar causas que estavam atravessadas na garganta. As pessoas aproveitaram o movimento para se manifestar contra tudo que não concordam no País."
Para a universitária, a reação violenta da polícia após a primeira passeata feita em São Paulo foi o estopim, fez com que as pessoas se mobilizassem para mostrar que iam continuar se manifestando. As principais causas de indignação, acredita Lidiane, têm a corrupção como pano de fundo, porque ela interfere diretamente na qualidade de serviços básicos, como educação e saúde. "O Brasil é um país que dispõe de muitos recursos, mas eles são desviados pelos políticos", argumenta.
Particularmente, a estudante garante que faz a sua parte para diminuir a corrupção e os comportamentos antiéticos. Não furar filas, não ficar com o dinheiro que porventura recebe a mais de troco, não ferir a liberdade de outros, já são práticas incorporadas por Lidiane. "As pessoas precisam ir além da participação em passeatas e estar mais atentas. Hoje em dia há muitas formas de acompanhar os gastos públicos, como por exemplo os portais da transparência", sugere.
O também universitário Pedro Leopoldo Martins Borges, de 22, fez questão de participar das duas passeatas realizadas em Londrina por sentir-se indignado. "Senti que não estava sozinho, foi um movimento organizado." Junto da corrupção, ele cita a má gestão do dinheiro público como fator desencadeante do movimento que toma conta do País. "A corrupção é uma questão histórica, e para mudar esta realidade é preciso que haja uma mudança de cultura. A melhor forma de mudar esta realidade é indo para as ruas mesmo. Não há outra forma de os governantes ouvirem os clamores da população. Não é sentando em uma mesa e tomando café. As manifestações exigem respostas rápidas. Tudo o que aconteceu nos últimos dias é uma prova disso", argumenta.
Pedro acredita que daqui para frente o País vai mudar sua forma de reivindicar. "Temos uma democracia, mas não temos uma República. Com o movimento Abaixo a Ditadura conseguimos uma democracia, mas não uma democracia funcional para a República. Acho que este movimento de agora vai entrar para a história neste sentido, de lutar pela República. Não adianta termos um poder que não exercemos", afirma. Mesmo sabendo que não é correto generalizar, o futuro advogado constata que a corrupção está arraigada na cultura brasileira. Pedro argumenta que muitos foram para as ruas protestar contra os corruptos, mas no dia a dia, o mais comum é que o brasileiro, se receber um troco a mais, não devolva porque, afinal, sente-se roubado com tanta frequência que em uma situação como esta acha que merece levar alguma vantagem também. "É algo que está enraizado entre nós, e que vai sendo reproduzido na população."
Há quem ache que as mudanças demoraram a acontecer. É o caso de Bruno Roberto Martins, de 20, estagiário do Fórum de Londrina. Para ele, as pessoas estão insatisfeitas há muito tempo, e as obras para a Copa do Mundo foram a gota d'água. "É complicado para alguém que mal ganha para sustentar uma família com filhos, ver o quanto se está investindo em estádios. Na minha opinião, seria muito melhor investir em escolas, serviços de saúde. Porque passada a Copa, continua todo mundo aqui, desempregado e sem infraestrutura."
Bruno já viajou para outros países e diz ter vergonha do tal 'jeitinho brasileiro'. "No Brasil é assim: há dois caminhos, o certo e o errado. As pessoas seguem pelo do meio, que é aquele em que elas vão ter alguma vantagem. E todo mundo faz isso, o rico, o pobre, a classe média. O que precisa mudar é a cultura brasileira, e isso não se consegue de uma hora para outra. Leva anos."


