Nada na natureza acontece por acaso. O meio ambiente dá sinais de que algo está acontecendo de errado antes de começar a causar prejuízos ao ser humano. O lago do Iraí, com 14,8 quilômetros quadrados (divisa entre os municípios de Quatro Barras e Piraquara), pode estar dando esse tipo de sinal menos de dois anos após o início do fechamento das comportas. A barragem, construída para regularizar a vazão do Rio Iraí e garantir fornecimento de água para quase metade dos moradores da Região Metropolitana de Curitiba, está em uma área naturalmente rica em matéria orgânica, além de receber dejetos urbanos.
Esse material aumenta as possibilidades de proliferação desordenada de microorganismos como algas ou plantas aquáticas. Esses vegetais podem liberar toxinas e reduzir a oxigenação da água. Com isso, a Sanepar teria que aumentar o uso de produtos químicos no tratamento, encarecendo os custos de produção.
Agenor Zarpelon, gerente de produção de água da Sanepar, reconhece a possibilidade da ocorrência de algas no lago devido as condições favoráveis para o desenvolvimento dos microorganismos. ‘‘Mas a Sanepar está fazendo o controle da qualidade da água com exames semanais e mensais do lago e de seus afluentes’’, diz. Segundo Zarpelon, os índices de incidência de algas e de oxigenação da água do lago estão normais. Entre as medidas tomadas estão a canalização e tratamento do esgoto domiciliar em toda a bacia do rio.
Um dos moradores mais próximos da represa, Renato Antonio Venske, 48 anos, questiona. Segundo ele, continua chegando muita poluição no lago pelos afluentes que passam em área urbanas de Pinhais, Piraquara e Quatro Barras. ‘‘Em alguns dias dá até mau cheiro na água’’, diz Venske, que mora há cerca de 100 metros da margem da represa. Ele conta que em uma área de 150 metros de margem retirou quatro carretas de lixo e outras quatro carretas de pedaços de madeira do lago.
Além dos dejetos urbanos, Venske diz que outro problema é o material orgânico da mata que ficou no fundo do lago. ‘‘Antes do fechamento das comportas a Sanepar mandou derrubar todas as árvores da área que seria inundada, mas esse material não foi retirado, ficou todo no fundo’’, afirma. Segundo ele, há cerca de dois mil metros cúbicos de restos de vegetação sendo decompostos no fundo do lago. Todo esse material beneficia o desenvolvimento de algas.
Para o professor do departamento de botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luciano Felício Fernandes, especialista em algas, a barragem do Iraí apresenta todas as condições favoráveis para o desenvolvimento desses microorganismos. ‘‘Dependendo da quantidade de algas, elas podem inviabilizar temporariamente o reservatório’’, diz. ‘‘Além disso, quanto mais degradada for a qualidade da água, mas caro será o tratamento e o preço cobrado dos usuários’’.
Ele sugere um monitoramento constante dos níveis de oxigênio do lago e da população de algas. As cianobactérias (algas azuis) são as mais perigosas, pois liberam substâncias tóxicas que encarecerão o tratamento da água. ‘‘Dá para perceber que existe a formação de plantas aquáticas no lago e isso é sinal de que há materia orgânica à disposição dos organismos’’, completa.
Além da quantidade de matéria orgânica, existem outros agravantes, no caso da barragem do Iraí, para o desenvolvimento de microorganismos e plantas aquáticas. O lago é muito raso. A profundidade média no Iraí é de 2 metros. A represa do Passaúna, em Curitiba, tem 7 metros de profundidade média. O lago da represa de Itaipu, em Foz do Iguaçu, tem profundidade média de 45 metros. Quanto mais profundo, menor a possibilidade de desenvolvimento de plantas aquáticas. Em lagos rasos, como no Iraí, os aguapés conseguem se enraizar com mais facilidade, aumentando a velocidade de reprodução.
Esse tipo de microorganismo precisa de luz solar para fazer fotossíntese. A pequena profundidade e o grande tempo de permanência na água no lago (em média dois anos) também reduzem a capacidade de oxigenação da barragem. Quanto menores as taxas de oxigênio, melhores as condições para o desenvolvimento de microorganismos aquáticos como algas tóxicas.
‘‘Eu não tenho coragem de tomar banho nesse lago e nem de pescar, se a Sanepar não tomar providências as condições vão piorar ainda mais’’, diz o morador. A barragem do Passaúna, na região sul de Curitiba, que abastece cerca de 10% da população de Curitiba, já apresentou problemas com proliferação de algas tóxicas. O fornecimento teve que ser suspenso até que a oxigenação da água voltasse ao normal. O desequilíbrio do ecossistema foi causado pelo excesso de matéria orgânica no lago, proveniente de esgoto domiciliar da região.

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