Quando Gustavo França Costa, de 23 anos, revelou aos pais que era gay, recebeu apoio e aceitação imediatos. Para o professor universitário aposentado Paulo Costa e a esposa Flávia Costa, o jeito do filho sentir e demonstrar afeto é apenas uma das características do rapaz, que sempre foi incentivado a não esconder quem era. A revelação ocorreu quando Gustavo tinha 17 anos e iniciava a faculdade de Direito na Universidade Estadual de São Paulo (USP). O acolhimento dos pais foi fundamental para o desenvolvimento da autoconfiança do filho. O que eles não puderem impedir, infelizmente, é que o rapaz acabasse sendo vítima de violência gratuita motivada por homofobia.
O ataque aconteceu quando ele estava no último ano da faculdade e ia para uma balada com um amigo. "Descemos do táxi e fomos surpreendidos por um homem que juntou nossas cabeças e começou nos agredir. Corri para o metrô em frente, mas meu amigo levou um soco", recorda ele, que não conhecia a pessoa e ainda sente muito medo quando lembra do episódio.
Gustavo conta que teve mais medo de contar sobre a agressão aos pais do que revelar a própria sexualidade. "Sabia que eles iam ficar muito preocupados", diz, destacando que o estilo de educação recebido em casa criou um paradoxo. "Meus pais sempre me alertaram para tomar precauções em relação à homofobia, mas também me incentivam a ser quem sou. Diante dos riscos de violência, eu acabo me autocensurando, o que é muito ruim. Precisamos combater também a culpabilização das vítimas", diz ele.
Flávia e Paulo ficaram sabendo da agressão pelo próprio filho, o que foi um alento. "Vi que ele estava vivo e íntegro", disse Paulo, que naquele dia, também, assistiu o maior medo se concretizar. "A gente tinha muito medo de agressões motivadas por homofobia. Naquele momento percebemos que o receio tinha fundamento", comenta. Flávia confirma que a família se preocupa com a violência física, mas sofre também com a violência velada materializada em olhares de reprovação para Gustavo e o namorado ou mesmo quando "sugerem" que ele não se mostre gay e em eventos familiares. "Me sinto triste por perceber que a humanidade não busca entender o que é a homossexualidade. Existem pessoas que sentem desejo pelo mesmo sexo e isso é uma realidade. A maior verdade, entretanto, é que somos todos seres humanos com sentimentos ", reforça.
O casal realiza estudos pautados pelo autoconhecimento e define que o preconceito, na verdade, é um incômodo sobre o que não se conhece. "O preconceituoso quer esconder o comportamento que o incomoda no outro, por isso é um agressor em potencial", lamenta Paulo, lembrando que os sentimentos do filho em relação a pessoas do mesmo sexo não são uma escolha.
O ataque à boate gay em Orlando gerou um sentimento de tristeza mesclado com preocupação na família. Gustavo, naquele domingo, acabava de voltar de uma viagem de férias com o namorado e os pais pensam, ainda hoje, que se o destino fosse Orlando, eles poderiam estar no local. O rapaz, por sua vez, se emocionou muito com as notícias. "O mundo está precisando de muito amor, mas as pessoas continuam negando determinado tipo de afeto entre duas pessoas", lamenta. (C.A.)

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