O ataque a uma boate gay que resultou na morte de 50 pessoas e deixou dezenas de feridos em Orlando, nos Estados Unidos, na semana passada, revelou mais uma vez ao mundo os riscos da homofobia. Movido pela intolerância, o atirador Omar Saddiqui Mateen, de 29 anos, tirou a vida de várias pessoas que estavam no local e acabou morrendo em confronto com a polícia. O ataque tem um significado simbólico para a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). No dia 28 de junho de 1969, há 47 anos, gays que estavam no bar Stonewall, na cidade de Nova York, se rebelaram contra a perseguição constante que sofriam da polícia. Desde então, junho é lembrado como um mês de resistência contra a chamada LGBTfobia, o que se expressa em paradas gays pelo Brasil e por todo o mundo.
Para a comunidade LGBT, o ataque à boate significa a imposição de violência extrema a um refúgio. O produtor cultural Vinícius Bueno, membro do Fórum LGBT de Londrina e com forte militância na área, destaca que as casas que recebem este público são espaços de socialização e aceitação. "São pessoas que dificilmente encontram apoio na família, na escola ou mesmo no trabalho, onde precisam sempre se mostrar as melhores para serem respeitadas. A boate é um espaço de encontro com os amigos e com si próprio, um espaço de afirmação onde a pessoa LGBT pode se manifestar de forma verdadeira", contextualiza.
Para ele, não poder expressar sentimentos é uma forma de violência que, associada à violência verbal e à violência institucional que faz parte da rotina da comunidade, impõe constante sofrimento. "Sempre digo que não existe gay ‘no armário’. O que existem são gays ‘na cristaleira’, aquelas pessoas que organizam a vida de modo a se enquadrarem em padrões ‘heteronormativos’ para não serem incomodadas", compara, lembrando que as casas noturnas, em geral, são os locais onde as pessoas que vivem relacionamentos homoafetivos podem se expressar em público.
Vinícius conta que, antes de integrar movimentos sociais de defesa dos direitos humanos, teve várias experiências em igrejas. "Eu sofria muito na escola e procurava as igrejas porque buscava pertencimento. Na infância e adolescência, sentia que era ‘errado’", recorda ele, que foi vítima de bullying durante todo o tempo que frequentou bancos escolares. "A escola inteira me chamava de ‘friends’ (em alusão a uma boate gay que funcionava na época em Londrina)", lamenta, destacando novamente o papel simbólico das boates na identificação das pessoas LGBT. "Eu revidava e acabava ficando de castigo na biblioteca. Não à toa acabei me formando em biblioteconomia", conta.
A militância começou no ensino médio, quando um professor o proibiu de usar manteiga de cacau na sala, alegando que não era coisa de homem. "Fiquei revoltado e fiz uma denúncia a um serviço telefônico da época. Eles me orientaram a procurar a ONG Adé Fidan, que funcionava no meu bairro. Acabei sendo acolhido pelas travestis", revela, destacando que o fato marcou o início da luta pela garantia de direitos. Durante os anos de universidade, Vinícius teve apoio de colegas, mas também enfrentou discriminação. "Teve professor dizendo que homossexualidade era doença e estudantes me chamando de ‘aberração’", lembra ele, que integrou também uma das diretorias do Diretório Central de Estudantes (DCE) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Convicto de que a diversidade diz respeito a garantir espaço para todos pontos de vista, desde que haja respeito, ele defende os ideais do papa Francisco e até integra um grupo de estudos sobre religião na UEL. Além disso, é presidente da Associação de Moradores da Vila Iara (zona leste de Londrina) e milita em movimentos sociais de direito ao uso da cidade, por acreditar que o direito de ir e vir em segurança deva ser garantido a todos.
Sobre o movimento LGBT, garante que, acima de tudo, é uma luta pelo direito ao amor. "A sociedade precisa entender que não há só um jeito de ser feliz", opina ele, que ainda sente muita dor quando é vítima de preconceito. "Hoje, por exemplo, não posso doar sangue apenas por ser gay. Não quero beijar em praça pública, mas luto para garantir este direito a quem queira fazê-lo", continua. Protagonista do beijo gay nas galerias da Câmara Municipal de Londrina durante as discussões do Plano Municipal de Educação, ele explica que foi um ato político. "Não quero aceitação, quero respeito. O fim da homofobia depende da desconstrução de valores, o que passa por educação sobre o tema na escola", pede.

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