A rotina das casas noturnas que atendem a comunidade LGBT em Londrina inclui repetidos episódios de manifestações homofóbicas. Tanto na boate Narciso como na New York Lounge, ambas voltadas para este público na cidade, o dia a dia inclui ofensas de pessoas que passam em frente aos estabelecimentos xingando e até mesmo jogando bombinhas do tipo "traque". Dentro das boates, quase não há confusão, mas quando os episódios ocorrem, normalmente são causados por homens heterossexuais que, apesar de terem ido até o local sabendo que se tratam de espaços LGBT, se ofendem com as demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo.
"É muito ofensivo", considera Gustavo Frederico, gerente da Narciso, que investe em segurança redobrada para garantir a tranquilidade dos clientes. "Já houve situações em que as mesmas pessoas que xingaram tentaram entrar na boate, mas nossos seguranças são orientados em relação a isso", garante.
A necessidade de investir na contratação de vários seguranças é explicada pelo fato de ser uma casa noturna e atender o público LGBT. "É um público muito exposto à violência gratuita. Tenho dó das pessoas preconceituosas que agem com violência", critica.
Gustavo explica que a boate, para os clientes, é uma "segunda casa". "Aqui há liberdade de afeto e segurança de que não vai haver represálias. É um lugar onde toda forma de amor é válida", enfatiza.
Os frequentadores são fiéis ao estabelecimento e, muitas vezes, veem no local um refúgio para socializar e trocar informações. "É um local onde eles percebem que não são únicos e sentem-se iguais a muitas outras pessoas. Muitos jovens acabam se informando sobre a própria sexualidade aqui, a gente acaba tendo uma função social", comenta. Por isso, a gerência busca criar um ambiente democrático, respeitoso e igualitário. "Mulheres pagam o mesmo que os homens e não há diferenciação na fila", exemplifica.
O clima pacífico não combina com a violência gratuita que vem de fora. Por isso, quando as pessoas estão esperando para entrar e são expostas a xingamentos gratuitos, aflora um sentimento de revolta. "Tentamos apaziguar, mas é muito difícil para alguns clientes que são vítimas de homofobia em outros ambientes. Nossa intenção é oferecer aconchego", diz.
No New York Lounge, as manifestações preconceituosas também fazem parte de uma rotina que inclui xingamentos, traques e até mesmo um caso de carro de cliente que foi riscado com palavras ofensivas. Não à toa, as proprietárias Fabiana Ishida e Ana Paula Lopes contrataram seguranças até mesmo para a rua do estabelecimento. A casa tem público LGBT e também muitas mulheres heterossexuais que buscam a balada para se divertir em segurança, sem risco de assédios ofensivos. "Eventualmente, fazemos festas universitárias que atraem homens heterossexuais. Alguns se ofendem quando recebem cantadas, não entendem que nosso público é LGBT", diz Fabiana.
As empresárias adotam a postura de não revidar ofensas. "Não sabemos do que uma pessoa preconceituosa é capaz. Ignoramos por temermos reações violentas, o que não significa que não seja ofensivo", dizem. Fabiana está com viagem marcada para participar da Parada Gay de Londres neste mês e ficou assustada com as notícias sobre Orlando. "É uma cidade que está no foco do terrorismo", acredita ela, que apesar do temor não vai se privar de manifestar o apoio às causas LGBT. "Junho é um mês de festa e resistência para esse público."
Como empreendedoras, elas lamentam o fato de serem ofendidas enquanto geram empregos e renda para o município. O New York Lounge, aliás, foi uma iniciativa de Fabiana para oferecer aos amigos um lugar seguro para se divertir e socializar. A ideia deu certo e, hoje, ela tem boates também em Maringá e Presidente Prudente (SP). "Tinha uma demanda reprimida", acredita ela, para quem a existência de casas voltadas para este público acaba encorajando as pessoas a buscarem locais onde podem se expressar sem medo. "As boates são lugares onde a comunidade LGBT não se sente sozinha no mundo", exemplifica.
A preocupação com segurança é tão inerente que Ana Paula e Fabiana relatam ser comum receber pais acompanhando os filhos na balada para conhecer o ambiente. "Eles querem saber se não há risco de violência. Fazemos questão de esclarecer que nossa casa é segura."

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