No início de agosto, um grupo de seis empresários portugueses foram assassinados em Fortaleza por homens que diziam ser seguranças particulares. Ainda em agosto, a filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, foi sequestrada na mansão da família que contava com vigilância particular, câmeras e cerca eletrificada. Dois dias depois da libertação da filha, a segurança particular do empresário falhou novamente e, dessa vez, o próprio comunicador foi a vítima do mesmo sequestrador, Fernando Dutra Pinto.
Em Londrina, houve a morte do empresário Carlos Roberto Specian, em 8 de setembro. Ele morreu numa troca de tiros com o ex-policial militar e vigilante particular Luiz Antonio Vieira, quando chegava em sua residência num bairro de alto padrão próximo ao centro da cidade.
Em comum, o fato de todas essas ocorrências envolverem, direta ou indiretamente, vigilância particular. Então, ficam as perguntas: quem busca os serviços de segurança particular procura mais segurança ou quer se sentir menos inseguro? Quem contrata, está realmente protegido? A população, sabe-se, já paga impostos para ser protegida pela segurança pública. Mas a falta de recursos acaba prejudicando o trabalho dos policiais. Não é raro, por exemplo, que viaturas não saiam para ronda por falta de combustível.
Quem controla e fiscaliza os serviços prestados por empresas de segurança privadas é a Polícia Federal, através das comissões de vigilância. É da PF também a responsabilidade de emitir os alvarás de funcionamento para empresas e as carteiras para os vigilantes - que começou a ser emitida em 1999. Essas comissões também se responsabilizam pelo controle do transporte de valores. Segundo a polícia, os vigilantes privados não podem fazer abordagens de pessoas na rua e nem prender ninguém. As ocorrências devem ser comunicadas à polícia para serem apuradas.
O delegado da Polícia Federal para Londrina e região, Sandro Roberto Viana, que participa da comissão regional, afirma que um dos maiores perigos está no pouco tempo de treinamento dos vigilantes, que é de apenas 15 dias. ''Isso é perigoso, mas é uma determinação legal que somos obrigados a cumprir'', analisa.
O delegado assegura que as ocorrências envolvendo empresas privadas de segurança são apuradas pela Polícia Federal. Ele citou que no caso da morte do empresário Specian, a PF abriu inquérito para apurar as responsabilidades da empresa Sitese Sistemas Técnicos de Segurança, pois a morte ocorreu em via pública e o profissional não poderia estar fazendo trabalho de ronda externa. A Folha procurou a empresa mas a política da Sitese é não comentar o caso com a imprensa.
Já em relação aos populares ''vigias'' noturnos, que fazem rondas com motos nos bairros, o delegado diz que não pode fazer nada porque não se enquadram na categoria de vigilantes. Os ''vigias do apito'', segundo Viana, são de responsabilidade da polícias Civil e Militar.
Na Secretaria Estadual de Segurança, o superintendente da Subdivisão de Vigilância Privada, Laertes Batista Salgueiro, afirma que não há legislação específica que regulamente o trabalho dos vigias, mas adianta que existem estudos em andamento. De acordo com Salgueiro, pelo menos 40% dos serviços de vigilância são prestados clandestinamente. A polícia, segundo ele, só pode trabalhar com base em denúncias.
A sociedade, por sua vez, fica refém dessa realidade. Ela se vê obrigada a ''contratar'' ou aceitar os serviços desses profissionais irregulares, pagando taxas que variam entre R$ 10,00 e R$ 20,00. Com isso, acaba contribuindo para a proliferação dessa classe de excluídos. Assim que começam a circular pelos bairros, esses agentes passam a conhecer a rotina dos lugares, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dos moradores e das residências.

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