Iniciante vive choque de realidade
Foi com a expectativa de ser um policial cidadão e servir à comunidade que um paranaense - que não quis se identificar - ingressou na Polícia Militar (PM) de um estado vizinho. Graduado em Serviço Social e com formação humanista, ele teve contato, no curso preparatório da polícia, com disciplinas que enalteciam o respeito aos Direitos Humanos e o conceito de polícia comunitária.
Ao terminar a escola e iniciar o trabalho nas ruas, entretanto, ele teve um verdadeiro ''choque de realidade''. Depois de um ano de serviço, com a saúde fragilizada pelo estresse, ele deixou a corporação.
''Ainda no período de estágio, participei de uma abordagem extremamente truculenta de um adolescente suspeito de ser traficante. O sargento a quem eu acompanhava deu um soco na cara do menino, que era franzino, justificando que não queria mais que ele permanecesse naquela região. Naquele dia, o adolescente nem portava drogas'', disse.
Segundo o rapaz, a despeito de toda a formação ''humanista'', os colegas mais velhos rapidamente ensinaram que, na rua, nem sempre é possível agir com educação. ''Como o policial pode morrer a troco de nada, tem de mostrar que também pode matar a troco de menos ainda'', diz ele.
Embuído dessa cultura, apesar do choque inicial, ele se adaptou ao comportamento dos outros policiais e, rapidamente, passou a agir com violência. ''Na primeira vez que presenciei uma agressão, foi bem difícil. Na terceira vez, já estava batendo com tranquilidade'', relata.
A rotina estressante, porém, trouxe consequências para a saúde. ''Passei a sofrer de queda no cabelo, insônia e dificuldades sexuais'', revela. A decisão de deixar a corporação ocorreu após uma abordagem a usuários de crack. Sem perceber que um dos suspeitos estava completamente ''chapado'' por causa da droga, ele agrediu o rapaz com um soco na boca por achar que estava sendo desrespeitado. ''Fui advertido pelo meu parceiro e só então percebi que tinha perdido o controle. Até então, procurava ter bom senso, mas neste dia agi no automático'', lamenta.
Em seguida, após sofrer uma forte crise que o afastou do trabalho por dois meses, ele decidiu pedir baixa. ''O policial é pego por uma rotina que induz ao erro. Além disso, os policiais, quando erram, não recebem amparo da própria corporação. Independentemente do salário, não vale a pena'', conclui. (C.A.)





