INFRAESTRUTURA - 'Licitaram um projeto e executaram outra coisa'
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sábado, 30 de abril de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Ocorrências como as quedas de pontes registradas em Londrina - que assiste ainda a um imbróglio na finalização do viaduto na rodovia PR-445, na zona sul, cujas obras foram paralisadas por erros na execução do projeto - geram questionamentos na população sobre a segurança nas estruturas da engenharia atual. No Rio de Janeiro, a queda de uma ciclovia que resultou na morte de dois ciclistas reforça essa percepção. "As pessoas acham que engenharia é uma ciência exata e que é tudo absolutamente perfeito, mas isso não existe. Toda ciência aplicada é inexata, o que impõe alguns riscos. Só não pode extrapolar os riscos aceitáveis", avalia Carlos José Marques da Costa Branco, engenheiro civil especializado em engenharia geotécnica.
Segundo ele, os engenheiros trabalham com o conceito de valor de segurança que protege contra o que chamou de "infortúnios". "Utilizamos materiais ou estruturas de tal maneira que cargas máximas aplicadas não cheguem ao valor máximo que possam suportar. Essa distância é o valor de segurança", esclarece, lembrando que é sempre possível diminuir o risco, desde que se tenha ciência que o custo vai crescer exponencialmente. "Valor de segurança é o equilíbrio entre o que é economicamente viável e o que é seguro."
Em Londrina, ele destaca que o problema que resultou na paralisação das obras do viaduto da PR-445 foi um erro na execução do projeto. "Licitaram um projeto e executaram outra coisa. Era para ter sido feito um aterro com solo reforçado e terra armada para distribuição homogênea das funções, ou seja, o terreno receberia a carga de forma igual. Mas do jeito que foi feito, as bordas têm mais peso que no meio, o que causa deformação diferencial", critica, lembrando que os critérios para estabelecer a pressão que o terreno poderia suportar também foram errados.
Já no Rio de Janeiro, ele opina que pode ter faltado uma ancoragem na ciclovia. "A passarela estava apoiada com peso próprio, normalmente isso é suficiente para apoiar a estrutura para baixo. No caso específico, aparentemente houve uma força que veio de baixo: a água", diz o especialista, que diante do fato, questionou o hábito de desenvolver projeto dentro do escritório, entre papéis e fotografias. "É muito importante visitar o local para ver como é a realidade", ensina.
Costa Branco defende que não é possível "discutir com a natureza". "Ela é soberana e superior a qualquer um de nós. A natureza nem sabe que existimos", diz, lembrando que, por isso, além de cumprir os trâmites formais de uma obra, o engenheiro deve considerar os fenômenos naturais. "A natureza não é exata, os fatores variam além do que podemos escrever no papel", considera.
Além dos fenômenos naturais, porém, há outros fatores, muitos deles evitáveis, que podem comprometer a segurança de uma obra. A corrupção é um deles, conforme Costa Branco, para quem a "ganância pelo dinheiro faz a pessoa deixar de lado alguns quesitos que precisariam ser cumpridos, expondo a obra a problemas". Além disso, cita a necessidade de manutenção, que é quase sempre ignorada pelo poder público, e até comportamentos como negligência, comodismo ou pressa.
O engenheiro civil Mauro Lacerda Santos Filho, professor titular da área de pontes e estrutura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), também defende a importância de desenvolver no Brasil a cultura da manutenção. "Para uma obra pública durar cem anos, tem que ser acompanhada, o que implica em trocar sistema elétrico, esquadrias e outros elementos. Uma ponte, por exemplo, pode ser alargada, mudada de lugar. É mais barato fazer manutenção do que construir de novo", defende.
O especialista esclarece que, nas obras públicas, os editais costumam ser rigorosos em relação aos profissionais que vão executá-las. "Além disso, o projeto em tese deve ser acompanhado por um corpo técnico do órgão público. Quem contrata a empresa tem que cuidar para ver se está de acordo", diz.
A FOLHA procurou o Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura (Confea) para repercutir os desastres em obras públicas e foi informada pela assessoria de imprensa que o órgão criou um grupo de trabalho sobre desastres em engenharia e só depois da conclusão do relatório emitirá uma posição oficial.


