INFRAESTRUTURA - Desastres alertam para um novo jeito de construir pontes
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sábado, 30 de abril de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Diante das fortes chuvas que derrubaram ou danificaram 45 pontes em Londrina no início do ano, especialistas opinam que será necessário mudar os parâmetros para construir este tipo de obras na cidade. A chuva, atípica, não podia ter sido prevista, como atestou o laudo técnico divulgado esta semana e que isentou a construtora e o projetista responsáveis pela ponte que transpõe o Ribeirão Cafezal na Rodovia Mábio Palhano, na Zona Sul, pouco antes do distrito do Espírito Santo. A estrutura sucumbiu e se transformou em um dos mais emblemáticos acidentes do período, principalmente porque se tratava de uma obra recente. Conforme o laudo, as causas do colapso devem ter sido a velocidade da água e o fato dela ter encoberto a ponte. Na época, moradores dos distritos e dos condomínios localizados além do Ribeirão Cafezal ficaram ilhados, sem acesso a Londrina pela única via disponível.
O engenheiro civil Mauro Lacerda Santos Filho, professor titular da área de pontes e estrutura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), defende que Londrina poderia se tornar um "estudo de caso" sobre o efeito da urbanização nas obras públicas. Ele explica que os desastres enfrentados pela cidade durante as fortes chuvas do ano passado e início de 2016 são efeito da rápida urbanização de Londrina, pois muitas das pontes foram construídas em áreas da zona rural que, com o tempo, se transformaram em bairros.
"A urbanização provocou a impermeabilização do solo. Dessa forma, a chuva que seria absorvida corre para o rio. Um riacho calmo e bucólico acaba se transformando em correnteza e tudo o que foi planejado para a ponte construída sobre ele não funciona. Com a urbanização, qualquer riacho vira enchente", explica.
Segundo o especialista, não existe um estudo que estabeleça parâmetros a respeito do impacto da urbanização sobre as obras, o que poderia ajudar a prever situações como a ocorrida em Londrina. "Estamos propondo um estudo sobre os efeitos das intervenções urbanas. Londrina seria um estudo de caso muito interessante", reforça ele, que visitou a cidade na época das quedas das pontes e chegou a essa conclusão. "Estados Unidos e Austrália estão estudando o assunto. Os pesquisadores sabem que é grave, mas ainda não há parâmetros", diz.
Lacerda acrescenta que a vida útil prevista para uma obra pública é de cem anos,
desde que haja manutenção e acompanhamento constantes. "A norma brasileira preconiza monitoramento a cada dois anos. Isso porque o mundo não fica estático neste período, e o que aconteceu em Londrina mostra isso", compara.
Muitos moradores da região da rodovia Mábio Palhano, onde uma ponte antiga permaneceu em pé enquanto a outra caiu, questionam o fato da estrutura mais velha ter resistido, apesar de ter recebido o impacto inicial da água. Para o especialista, isso ocorre porque a tecnologia usada para construir pontes, há algumas décadas, era diferente. "A estrutura era conservadora e redundante, faz sentido que sejam mais sólidas. Com a tecnologia, as soluções estruturais ficaram mais ousadas", afirma.
O engenheiro civil Carlos José Marques da Costa Branco, especializado em engenharia geotécnica (que trabalha com solos, fundações e barragens) e que também é professor de Engenharia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), esclarece que a primeira ponte foi concretada inteira, sem articulações e com mais apoios. "É o que a gente chama de elemento monolítico", explica. As pontes mais atuais, ao contrário, são feitas pelo sistema pré-moldado e com concreto protendido. "As peças são pré-fabricadas no canteiro e depois colocadas. Possuem vãos maiores, são mais flexíveis e ficam bem mais baratas que as construídas pelo sistema antigo. De certa forma, esta é uma vantagem que beneficia a sociedade", opina.
O engenheiro avalia que este modelo de obra não oferece riscos em condições normais de clima. No caso da ponte da Mábio Palhano, porém, o contexto de precipitações que atingiram quase o dobro da maior chuva que já caiu na cidade, agravadas pela presença de galhadas, derrubou a estrutura. "Teria jeito de fazer uma ponte para suportar tudo isso? Sim, mas o custo seria mais elevado", contextualiza.
Maria Clarice de Oliveira Rabelo Moreno, conselheira da Câmara de Engenharia do Crea-PR e ex-presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal), concorda que no caso da Mábio Palhano não houve erro de engenharia. "A água nunca havia chegado naquele nível, os profissionais projetaram pelo histórico", opina. A engenheira tem participado de reuniões com outros profissionais da área e garante que já houve discussões para rever os parâmetros. "Provavelmente os técnicos estão estudando, mas essas revisões não ocorrem do dia para a noite", defende.
O secretário municipal de Obras e Pavimentação, Walmir Matos, confirmou que o sistema antigo de construir pontes é mais estável, porém apresenta a desvantagem do alto custo, da exigência de maior prazo para finalizar e muitos operários envolvidos. "As pontes atuais são mais sujeitas à movimentação, porém são mais ágeis e mais baratas", avalia. Segundo ele, as mais de 30 quedas de pontes registradas em Londrina vão levar a uma revisão dos critérios para esse tipo de construção. "As novas pontes terão outro grau de segurança, provavelmente teremos que deixar o fluxo da água o mais livre possível. A partir da semana que vem vou me reunir com os técnicos para discutir a recuperação, até porque, no caso da Mábio Palhano, o sistema usado permite recuperação parcial", disse.


