Inflação e desemprego favorecem superendividamento
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de novembro de 2015
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
O aumento no custo de vida causado pela inflação e o desemprego decorrente da queda na atividade econômica no Brasil comprometem o pagamento das dívidas e abrem caminho para a inadimplência que gera o superendividamento. O alerta é do doutor em economia Alivinio Almeida, professor convidado do ISAE/FGV. Ele explica que o superendividamento ocorre quando uma pessoa se vê impossibilitada de pagar as dívidas atuais ou futuras com a atual renda e patrimônio.
Quando isso ocorre, surgem dificuldades de suprir suas necessidades básicas, como alimentação, moradia e saúde. "É um problema econômico que se torna um problema social", diz.
Almeida destaca que o endividamento faz parte da vida financeira das famílias. O problema aparece quando a capacidade de pagamento dos débitos vai sendo consumida pelas próprias dívidas, independentemente do valor. "O perigo aparece quando o crescimento da dívida passa a ser maior que a capacidade de pagamento, levando à inadimplência", avisa, lembrando que é possível ter super dívidas sem estar superendividado. "Um financiamento imobiliário, por exemplo, é um débito enorme, mas que vai sendo diluído ao longo do tempo e de acordo com a capacidade de pagamento do devedor, não representando risco de inadimplência. O problema é quando algo não dá certo e a dívida vai crescendo e se torna ameaçadora", avalia.
Segundo ele, numa conjuntura de alta na inflação, os preços sobem e fica mais difícil para as pessoas acompanharem a alta no custo de vida. Além disso, a inflação eleva a taxa de juros, aumentando o custo de ter débitos. "Às vezes o valor da dívida nem é muito alto, mas o serviço da dívida, ou seja, os juros aplicados, cresce", explica.
Por outro lado, com a crise econômica, há maior risco de desemprego, o que compromete a capacidade de pagamento do trabalhador. "Não tem mistério, as épocas de crise favorecem o superendivademento", afirma, reforçando que nem sempre a situação é relacionada a altos valores. "Pode começar com um atraso no aluguel, com dívidas de custeio que ficam comprometidas pela inflação alta e desemprego", pontua.
Almeida alerta que existe a perspectiva de quase 10% da força de trabalho do Brasil começar o ano desempregada. "É complicado, porque aumenta a possibilidade das pessoas se tornarem cada vez mais inadimplentes. Isso contamina toda a economia, pois haverá menos gente para consumir", acredita. O doutor em economia avisa que as expectativas para 2016 não são boas. "Com isso, a vida econômica vai ficando mais difícil", lamenta ele, para quem toda essa conjuntura acabará levando muita gente a "aprender pela dor". "Quem ficou superendividado provavelmente aprenderá a não contrair novas dívidas", comenta.
Para prevenir o superendividamento, não existe mágica. "É matemática. As pessoas precisam gastar menos e melhor no sentido de reduzir desperdício", ensina. Ele lembra também que nem todas as dívidas precisam ser evitadas. "Se tiver que comprar, que seja algo que contribua para a melhoria das condições de vida", ensina, exemplificando que um curso, uma ação para melhorar a marca de uma empresa ou mesmo trocar um carro que consome muito por outro mais econômico são dívidas aceitáveis. "É importante investir em competências", reforça.
Quem tem já está endividado, por outro lado, precisa rever as despesas e renegociar, buscando um financiamento mais barato, por exemplo, para quitar débitos que tenham juros mais altos. "É hora de reduzir os gastos e rever as próprias expectativas. Uma viagem de turismo pode ser adiada em nome do pagamento mais rápido de valores devidos", exemplifica.


