Em regiões onde os episódios de violência são constantes, crianças e adolescentes vivem atemorizados. Uma das principais preocupações é tornarem-se, também eles, vítimas da rotina de crimes que os cerca. E não é para menos. No intervalo de um mês, em apenas um bairro de Londrina, um garoto de 12 anos foi morto ao ser baleado na cabeça por uma pistola 9 milímetros, em provável guerra pelo comando do tráfico, e uma garota, da mesma idade, foi atingida por um tiro no pé enquanto voltava da padaria, durante uma perseguição policial. O primeiro caso aconteceu no dia 2 de maio. O segundo foi no último dia 6, também uma quinta-feira.
A adolescente que hoje se recupera do grave ferimento no pé já presenciou, em sua curta história de vida, a morte de várias pessoas perto de sua casa. Ela conta que no dia em que foi atingida pelo tiro, um pouco antes pressentiu que algo estava prestes a acontecer. Temeu pela mãe, e resolveu ir embora mais cedo da escola para procurá-la no trabalho. "Ela falou que ia na padaria comprar alguma coisa para eu comer, daí eu me ofereci para ir. Quando estava voltando, ouvi uns tiros e vi um cara de moto fugindo da polícia", relata a menina, que não teve tempo para correr do perigo. Um dos tiros atravessou seu pé.
três dias internada no hospital e agora deve ficar pelo menos outros 20 de recuperação em casa, sem poder frequentar a escola. Para ter um pouco mais de conforto, a adolescente foi acolhida pela vizinha, que tem casa maior e pôde oferecer-lhe, inclusive, o "luxo" de uma cama para se restabelecer. Com uma maturidade surpreendente, a menina revela que agradece a Deus pelo fato de ter sido ela a atingida pelo tiro e não sua mãe. E explica por que: "Minha mãe já está traumatizada com tiros, acho que se fosse com ela, na hora teria saído correndo, nervosa, e teria sido atingida em outro lugar".
A garota se emociona ao falar do lugar onde mora, conta que a mãe foi para lá com os quatro filhos por falta de opção e confessa que tem vontade de ir para outro lugar. "Mas não dá", resigna-se.
Em uma rápida conversa com outras crianças e adolescentes da região é fácil perceber que muitos já sentiram e viram a violência de perto. "No ano passado mataram um homem na frente da minha casa. Estava voltando da escola e de longe já vi que a rua estava cheia de gente. Um cunhado meu ficou com tanto medo que se escondeu no guarda-roupa", conta um sorridente adolescente, que de repente fica sério e revela: "Ontem mesmo ouvi tiros perto de casa". Questionado sobre como é viver nesta realidade, ele emudece por um tempo, para depois balbuciar: "Não dá para acostumar".
No grupo ouvido pela reportagem, vários admitiram conhecer o menino morto em maio, mas preferem não falar sobre o assunto. Revelam apenas que ele tinha abandonado a escola e que teria morrido no lugar do irmão mais velho. Há quase um mês, em reportagem que discutia a maioridade penal, a FOLHA mostrou que 164 adolescentes foram vítimas de crimes contra a vida em 2012 no Paraná. O número é 26% menor do que o registrado em 2011, quando 222 adolescentes vieram a óbito. Até março deste ano a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) registrou 46 vítimas.

Serviço
Interessados em ajudar a adolescente ferida com um tiro devem entrar em contato com Marcelo Casanova pelo telefone (43) 8824-7689.

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