INFÂNCIA NA BERLINDA - Pais trocam consumo por simplicidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de outubro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A pedagoga Gisele Favoreto, mãe de Enrico, de 5 anos, e Maria Antônia, de 1, sempre achou que o tempo da infância não era suficientemente respeitado. Nas primeiras experiências profissionais, observou que faltava a valorização das brincadeiras nas instituições onde trabalhou e, quando ela própria estava estudando, tinha um sentimento de que "perdia tempo" quando estava sentada nas carteiras escolares. Por isso, transformou a valorização da infância em um projeto de vida. Antes mesmo de ter filhos, se tornou proprietária de uma escola que prioriza as brincadeiras e o tempo das crianças. A maternidade chegou para confirmar as convicções. Na "contramão" da sociedade de consumo, ela educa os filhos com simplicidade por acreditar que os principais valores em uma família não dependem de presentes, personagens infantis, comida industrializada e outras armadilhas do consumismo.
Gisele e o marido Carlos Magi compartilham o mesmo projeto. Por isso, organizaram a rotina familiar de modo a permitir que cada um passe pelo menos duas manhãs por semana com as crianças. "A gente só consegue ensinar se estiver junto com eles, por isso priorizamos nosso tempo juntos", relata.
Apesar de haver espaço para quartos separados, os dois irmãos dormem no mesmo cômodo. Enrico, o mais velho, é incentivado a ensinar e ajudar a caçula, o que favorece a criação de vínculos entre eles. Equipamentos eletrônicos e TV estão disponíveis, mas o tempo é limitado porque os pais acreditam que "tem coisa mais legal para fazer". Além disso, priorizam o contato com a natureza, mesmo que às vezes o passeio seja uma simples volta no quarteirão. "Também adotamos simplicidade nas compras. Não adquirimos produtos de personagens, embora eles ganhem de parentes", conta.
Quando Enrico manifesta vontade de ter algo, os pais conversam para mostrar que nem sempre "o que queremos é necessário". "Incentivo a troca de brinquedos", pontua, destacando que o filho também tem espaço para manifestar as próprias vontades. Quem manda na casa, porém, são os adultos, o que Gisele considera possível porque existem vínculos. "Quando não há vínculo afetivo, fica mais difícil educar. As escolhas são diárias, nosso papel é pensar no que é melhor para a criança, e não o que é mais fácil para a mãe ou o pai."
Sem presentes
Na casa da professora Gisele Bider Capinam, os filhos Júlia, de 12, e Ariel, de 10, não vão ganhar presentes no Dia das Crianças. Normalmente, também não recebem dos pais as lembranças de aniversário ou Natal, porque os adultos consideram que as crianças já ganham o suficiente do restante da família. Além disso, por entenderem que é preciso organizar as vontades de acordo com os recursos financeiros, as crianças decidiram, há dois anos, trocar as festas de aniversário pelas viagens em família.
Gisele e o marido Alexandre Capinam partilham de valores mais humanos e menos consumistas desde antes de terem filhos. Para eles, foi natural implementar esse estilo de vida às crianças, que são criadas para serem adultos solidários e que façam diferença no mundo. "Eles não deixam de ter coisas que querem, mas com limites. Celular, por exemplo, é algo que não compramos por considerarmos que eles não precisam. Conversamos bastante e eles entendem", revela.
Por outro lado, Júlia e Ariel recebem "bens" valiosos que não fazem parte da rotina de muitas crianças. Diariamente, os pais fazem questão de passar um tempo junto com os filhos, por isso jantam em família todos os dias e também realizam um momento de convivência, seja jogando, lendo ou apenas conversando.
Gisele trabalhou por meio período até dois anos atrás, quando decidiu voltar à rotina de trabalho integral por considerar que os filhos já estavam crescidos. "Desde então, eles almoçam todos os dias com o pai, mas na sexta-feira organizei minha rotina para estar com a família também nesta refeição", conta. Na hora em que não estão na escola, a mãe faz questão que tenham tempo livre para "não fazer nada". "Eles fazem inglês e um esporte. Desta forma sobra bastante tempo para brincar", avalia.
A mãe opina que não tem como criar filhos sem tempo e dedicação. "O esforço tem que partir dos pais", acredita ela, que apesar de sentir-se um pouco rígida é considerada uma mãe "muito legal" pelo caçula Ariel. "Não sinto falta de ganhar vários presentes, pois quem compra muitas coisas acaba poluindo o ambiente. Gosto muito de passar o tempo com minha família, considero que eles me dão tudo o que preciso", disse o menino, que quando questionado sobre o que as crianças mais necessitam, respondeu com simplicidade. "O que a gente mais precisa é amor."


