Ângela Scalabrin Coutinho, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em estudos da criança, pontua que a infância é uma constituição social que se altera de acordo com o modo de organização de vida e o trabalho da sociedade. "Hoje há uma demanda grande em relação à ocupação do tempo das crianças, pois as famílias têm cada vez menos tempo para estar com elas", constata.
Ela lembra que crianças de diferentes classes sociais vão ter diferentes configurações da infância. Para grande parte delas, esta fase da vida é caracterizada como um tempo que quase reproduz o que já seriam atribuições dos adultos. "As crianças de melhores condições financeiras têm agendas cada vez mais ocupadas com cursos e atividades extras. Há uma percepção de que quanto mais cedo se apropriarem de conhecimentos, mais sucesso terão na vida. Mas na verdade é um processo de crescimento e desenvolvimento", diz.
Já as crianças que não têm condições sociais favorecidas passam muito tempo da vida institucionalizadas em centros de educação infantil ou escolas. "Pior é quando não têm sequer os direitos básicos assegurados", considera.
Por isso, Ângela defende que a própria sociedade reconheça a criança como sujeito de direitos, seja à educação, à brincadeira, à proteção ou à provisão. "Esta fase é uma parte pequena da vida, mas fundamental para a constituição humana. Família e Estado precisam assumir suas funções, o Estado oferecendo espaços públicos para brincadeiras, educação e saúde com qualidade, e a família resguardando os papéis de proteção", argumenta.
A educadora pontua que a "crise da infância" não é de fato das crianças, mas sim das famílias cada vez mais envolvidas no dilema de trabalhar para dar boas condições de vida, mesmo que isso signifique colocar em segundo plano o afeto, a presença, a conversa e a interação. "São valores que se tornaram secundários na sociedade de consumo", aponta.
Não à toa, uma grande alteração da infância contemporânea é que meninos e meninas são vistos como potenciais consumidores. "As famílias têm menos tempo e acabam compensando a ausência com presentes", diz, destacando que os adultos muitas vezes se perdem ao não entenderem que mesmo podendo ofertar o que a criança pede, em alguns momentos a negativa é importante.
"Vejo que os adultos precisam compreender melhor todos esses processos, mas personalizamos o problema nas crianças. Não existe regra fechada para educar filhos, tudo vai depender das condições de vida, do que a criança vive em outros espaços e de ter um olhar mais ampliado sobre isso."(C.A.)

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