Cambé - Um homem violento, que consumia bebidas alcoólicas de forma abusiva e acumulava um histórico de desentendimentos com moradores do bairro. É dessa forma que os vizinhos descrevem Adão Barbosa Xavier, 48 anos, assassino confesso da menina Joseane Pereira de Moraes, 9 anos, morta após ter sido estuprada no final do ano passado em Cambé (Norte).
A morte, segundo eles, teria sido uma tragédia anunciada. A menina era amiga de uma das filhas de Xavier, com quem a mãe de Joseane trabalhava na separação de materiais recicláveis. As duas garotas costumavam ficar sozinhas pelas ruas do bairro enquanto os pais passavam as madrugadas bebendo.
''Denunciamos a situação várias vezes ao Conselho Tutelar, mas, infelizmente, não deu tempo de evitar a tragédia'', comentaram vizinhos que, por segurança, preferiram não se identificar. Segundo eles, houve até quem tenha registrado queixa contra Xavier, por ameaça, o que não foi suficiente para mudar o comportamento do acusado pelo assassinato.
De acordo com Agenor de Souza, presidente do Conselho Tutelar de Cambé, Joseane foi encaminhada para serviços de atendimento a crianças em situação de risco. ''Evitar a morte ficou fora do nosso alcance. É impossível ficar olhando as crianças 24 horas por dia'', alega. A família de Xavier, que está preso, continua sendo assistida pelo Conselho.
A menina brutalmente assassinada antes de completar a primeira década de vida habita as memórias da avó, Maria Tributino Pereira Soares. Preocupada com o alcoolismo da mãe de Joseane, era ela quem se esforçava para garantir alimentos, cuidados e segurança para a neta e os três irmãos. ''Falei com o pessoal do Conselho Tutelar para olhar pelos meus netos, mas a lei só vem quando já aconteceu a tragédia'', denuncia.
Afastada da irmã mais velha de Joseane, que se mudou para a casa de parentes em outro Estado por questões de segurança, Maria sofre com a saudade das netas e com o inconformismo pela morte precoce da caçula. ''É diferente de perder alguém por morte natural. Pela maneira brutal como foi assassinada, não tem como a gente se conformar'', diz.
Maria sentia-se constantemente temerosa pelo estilo de vida levado pela mãe de Joseane, mas, até acontecer a tragédia com a neta, jamais imaginou que um vizinho poderia cometer tamanha brutalidade. Com lágrimas nos olhos, recorda que Joseane era uma menina inocente que só pensava em brincar. ''Penso nela todos os dias. No café da manhã, era ela quem vinha buscar o pão e o leite. A Joseane era boazinha e fazia tudo que a gente pedia'', conta.
A tristeza da avó está expressa na placa de ''vende-se'' em frente à casa onde mora. ''Não me sinto bem neste lugar. Enquanto estiver por aqui, vou continuar muito triste. É como se tivessem levado um pedaço de mim.'' A prisão de Xavier, apesar de não diminuir a tristeza, acabou com a sensação de impunidade. ''Espero que ele nunca mais saia da cadeia, para não ter chance de fazer outra família infeliz.''
Marcada pela tragédia, ela ainda encontra forças para aconselhar as famílias que temem pela segurança dos próprios filhos. ''Os pais precisam estar sempre preocupados, não podem descuidar das crianças. Quem é ruim não nasce com estrela na testa.''

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