Dos dez principais produtos industrializados exportados pelo Paraná, de janeiro a abril, sete são do setor automotivo
Dos dez principais produtos industrializados exportados pelo Paraná, de janeiro a abril, sete são do setor automotivo | Foto: Sergio Ranalli/01-08-2017



O aquecimento da economia dos Estados Unidos e a ameaça de guerra comercial iniciada pelo governo de Donald Trump, que aumentam a flutuação sobre o capital especulativo, levaram à valorização do dólar em todo mundo, com reflexo grande sobre a Argentina. Terceiro maior parceiro comercial brasileiro, o vizinho é também o principal destino de exportações de veículos e materiais de transporte das indústrias nacional e, principalmente, paranaense. Cenário que deve deixar o setor, que voltava a subir a ladeira nesse início de ano, com um olho à frente e outro no retrovisor.
O dólar se aproximou, na última sexta-feira (11), da cotação de 23 pesos argentinos, uma valorização superior a 9% desde janeiro e, em torno de 45%, em 12 meses. Além da valorização mundial da moeda norte-americana, o país vizinho foi afetado por questões como a quebra da safra de grãos, que representa perda estimada de US$ 5 bilhões em exportações e diminui as já não tão saudáveis reservas internacionais dos hermanos, segundo dados da AEB (Associação do Comércio Exterior do Brasil).
Com a disparada do dólar, importar fica muito mais caro em pesos, há inflação e redução do consumo na Argentina. O impacto dessa crise não deve ser grande na economia brasileira, que possui reservas mais robustas, mas afetará as exportações de um dos principais produtos manufaturados da balança comercial paranaense, os veículos.
As exportações do Brasil para a Argentina representam 6,4% de tudo que foi embarcado para o exterior nos primeiros quatro meses deste ano, segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). Até mesmo pela proximidade, a nação é a segunda maior consumidora de produtos paranaenses, atrás apenas da China. O índice de vendas do Estado também é maior, de 10,6%.

Imagem ilustrativa da imagem Indústria de veículos será maior prejudicada por crise argentina



DEPENDÊNCIA
Quando se observa somente as exportações do grupo "Veículos automóveis, tratores, ciclos, outros veículos terrestres, partes e acessórios", novamente a indústria do Paraná depende mais da Argentina. A fatia de comercialização desse tipo de produto para lá é de 48% do total das vendas automotivas brasileiras e de 63,9% das paranaenses, de acordo com o MDIC. "Se esse câmbio se mantiver nesse patamar, vai provocar redução das exportações do Paraná para aquele país", diz o economista Roberto Zurcher, da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná).
O analista afirma que, antes da disparada do dólar, era mais barato para os argentinos comprarem um carro importado do que um nacional. Se a notícia é boa para a indústria deles, porém, não é para a paranaense. Dos dez principais produtos industrializados exportados pelo Paraná de janeiro a abril, Zurcher afirma que sete são do setor automotivo, dois de papel e celulose e um de carne suína processada.
Para o presidente da AEB, José Augusto de Castro, a dificuldade será saber o tamanho da perda, mas não há dúvida que a crise afetará a indústria brasileira. "Infelizmente, as exportações de automóveis estão centralizadas na Argentina e não há como direcionar isso para outros países", diz.
Ainda assim, Castro considera que os efeitos da crise no Brasil serão infinitamente menores no Brasil do que no país vizinho, exatamente pelas reservas monetárias maiores e pela maior diversificação da economia e da pauta de exportações. "O problema é que 90% do que o Brasil exporta à Argentina são manufaturados e representam 40% do total. Depois vêm os Estados Unidos, com 15%", conta.

Estratégia de redução de danos
O economista da Fiep, Roberto Zurcher, afirma que a indústria automotiva paranaense buscou nos últimos dois anos emplacar vendas a outros destinos, uma estratégia diante da crise brasileira e do menor consumo interno. Entretanto, o segundo principal destino do setor é o Peru, com apenas 8,8% do total do setor, seguido de Chile (6,5%) e Colômbia (5,1%). "As empresas terão de procurar outras alternativas de mercado, mesmo que não seja possível substituir", cita.
A retomada do economia brasileira, aliás, também é motivo de preocupação, diz o presidente da AEB, José Augusto de Castro. "Poderia servir para reduzir essa perda, mas o consumo interno não está mostrando fôlego. E essa redução de exportações para a Argentina vai impactar mais ainda", afirma Castro.
Por enquanto, as empresas ainda aguardam os desdobramentos da crise. Por meio de assessoria de imprensa, a Volvo informou que "não sentiu necessidade de refazer suas previsões de exportações para a Argentina por conta das oscilações cambiais das últimas semanas". "Trata-se de um mercado em que há variações normais de volume de veículos mês a mês. Um eventual ajuste de expectativa só poderá ser definido num prazo mais longo", citou, em nota.

Macri tenta financiamento junto ao FMI
O presidente argentino, Mauricio Macri, começou a negociar na última quarta-feira (9) um programa de socorro junto ao FMI (Fundo Monetário Internacional), de valores acima de US$ 30 bilhões, para tentar conter a disparada cambial no país. Em contrapartida, o órgão deverá cobrar medidas austeras de controle fiscal por parte do governo.
O valor de US$ 30 bilhões, estimado pela imprensa argentina e chamado de "financiamento preventivo" pelo governo, representa pouco mais de 50% das reservas atuais do país. Apesar de não envolver o desembolso imediato de recursos, o crédito preventivo pode acalmar o mercado e funcionar como um "selo de qualidade" do FMI às medidas econômicas do país.
Nas últimas semanas o governo adotou uma taxa básica de juros em 40%, gastou US$ 7,3 bilhões das reservas internacionais e anunciou uma redução do deficit fiscal de 3,2% para 2,7% do PIB, que não foram suficientes para frear a desvalorização do peso frente o dólar.

DIFERENÇAS
A economista-chefe para a América Latina da seguradora de crédito francesa Coface, Patricia Krause, afirmou que a economia brasileira está em situação "bem melhor" do que a da Argentina. "O deficit externo da Argentina é muito elevado, de 5% do PIB, enquanto o do Brasil é de 0,4%. As reservas do Brasil são muito altas, enquanto a Argentina depende de recursos externos para se financiar", disse.
Na avaliação de Krause, o banco central argentino "errou um pouco na mão" na maneira como reagiu à alta do dólar em relação ao peso. "O cenário é de descontrole. Essa tendência de valorização do dólar continua, independentemente do que a Argentina possa fazer", declarou. (Com informações da Agência Estado)

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