Professor de duas escolas particulares em Londrina, um educador ouvido pela reportagem da FOLHA, que não quis se identificar, relata que a falta de respeito por parte dos alunos faz parte da rotina. "Eles gritam, não atendem quando peço para sentarem, colocam apelidos nos professores e falam todo tipo de palavrões. É frustrante preparar a aula e não conseguir transmitir o que foi planejado por causa do tumulto", lamenta.
As lembranças da época em que dava aulas na rede estadual não são diferentes. Em uma ocasião, o professor confessa que quase perdeu a razão quando foi ameaçado por um aluno que seguidamente assobiava quando ele apagava a luz da sala para tentar exibir um vídeo. "Quando consegui identificar quem estava tumultuando e pedi para sair da sala, ele se negou e veio para cima de mim. Quase perdi o controle, mas pensei na minha família", disse.
Outra reclamação do mestre é sobre a pressão para dar muitas chances aos alunos sem condições de serem aprovados. "A preocupação em não perder a clientela afeta o trabalho do professor", acredita ele, que não se sente uma autoridade diante dos estudantes. "Infelizmente, a autoridade é de quem paga a mensalidade", afirma.
Um dos pontos de discórdia do professor com relação aos gestores das escolas é sobre o uso de celular. "É liberado porque os pais podem querer falar com os filhos. Não seria mais fácil ligar na escola e passar um recado?", questiona. Além de provocarem distração, os equipamentos também ameaçam a privacidade dos professores e dos outros alunos, visto que muitos adolescentes tiram fotos durante as aulas. "Quando consigo perceber, mando apagar as fotos. Mas tem ocasiões que só vejo a foto quando já está nas redes sociais", diz.
Em uma realidade parecida, apesar das diferenças sociais da clientela, um outro professor da rede estadual conta que a indisciplina dos alunos é tratada como se fosse inerente ao trabalho do docente pelos trabalhadores da Educação. "Os alunos conversam muito, não obedecem e não respeitam a autoridade do professor. É quase impossível dar uma aula expositiva de mais de dez minutos", desabafa ele, que apesar de não se ofender com o comportamento dos alunos, se sente constantemente desgastado. "É complicado ter que gritar para ser ouvido", diz.
Entre os episódios que marcaram a carreira do profissional com relação à indisciplina, ele lembra da ocasião em que uma aluna, "por brincadeira", puxou a cadeira onde ia se sentar para fazer a chamada, fazendo-o cair no chão. "Era uma menina que inclusive demonstrava apreço por mim, mas não sabia obedecer regras. Não interpreto como falta de educação, mas como falta de cidadania. A aluna achou que o ambiente da escola era conivente com esse tipo de 'brincadeira'", disse, acrescentando que o mal-estar foi resolvido com um pedido formal de desculpas.
Em outra ocasião, logo após fechar a porta da sala de aula ao final do intervalo, um aluno que ficou para fora, porque não voltou após a "tolerância de tempo" oferecida pelo professor aos retardatários, chutou a porta em questão para ter acesso à classe. "Eu estava atrás e fui atingido na cabeça. O problema também foi resolvido de forma interna, mas, para falar a verdade, nem lembro o desfecho. Eu tinha que me preocupar com os outros 40 alunos", diz.
O professor comenta que não gosta de ser autoritário, o que algumas vezes acaba gerando interpretação errada por parte das crianças e adolescentes, que confundem liberdade com permissividade. "Tento lidar com a indisciplina de forma assertiva, solucionando os conflitos na própria sala. Infelizmente, não funciona para todos os alunos", lamenta. (C.A.)


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